Análise | Cyberpunk 2077


Cyberpunk 2077 análise crítica review

Você é uma empresa que viu as ações estourarem depois de um justo e renomado jogo lançado, com diversos prêmios e fãs, com DLCs a preço justo e ações acertadas pró-consumidor e decide anunciar um grande projeto escolhendo um dos subgêneros da ficção científica tão pouco explorados, mas com muito potencial, e decide nomear o seu projeto como Cyberpunk 2077, o hype foi criado. Neste hype você surfa, aproveitando a sua merecida fama de empresa que está do lado dos fãs e critica todo um mercado de games que explora financeiramente com jogos recheados de loot boxes e micro transações, reitera e promete que o seu mais novo projeto irá revolucionar o universo dos games e será lançado quando estiver pronto, dessa forma criando toda uma expectativa na base de jogadores e indústria.

“Hype é uma abreviação palavra hyperbole em inglês, que significa exagero. É utilizada para expressar uma ideia de maneira dramática e aumentada e foi usada pelo marketing para referir-se a campanhas publicitárias ou ações de marketing exageradas.”

 

Logo após o intrigante anúncio (presente no vídeo acima) em janeiro de 2013, Cyberpunk 2077 entra em um limbo de informações e imagens, só sendo alimentado por declarações exageradas do quão grandioso seria o jogo e quão generosos eles serão quando o jogo for lançado, entregando uma experiência premium a um preço justo.

Depois de muitas declarações inflando o próprio ego da companhia, Cyberpunk 2077 ressurge na E3 2018. Apresentando todo o conceito tão ansiado pelos fãs e uma Night City repleta de sonhos onde tudo pode ser possível e um gameplay divertido, o hype que já era alimentado reacende a níveis incontroláveis despertando uma reação exagerada na fanbase já instalada de um produto que sequer foi lançado, uma pergunta marretou a paciência da CD Projekt Red: Qual seria a data de lançamento?

 

A resposta para essa pergunta veio um ano depois, na E3 2019, onde mais uma obra de marketing arrasadora foi lançada, Keanu Reeves, o ator mais influente na época (estrelava o filme mais hypado da cultura pop, Jonh Wick), surge no palco do evento em um momento histórico e anuncia não só a data de lançamento para 2020, mas também que seria um personagem em Cyberpunk 2077, Johnny Silverhand. Neste momento, a CD Projekt Red se envolveu no seu pior pesadelo, ela se tornou vítima e cúmplice do próprio exagero de marketing.

 

Para manter o hype lá em cima e como parte de uma estratégia de marketing de preparação de lançamento, a empresa começa a divulgar pequenos eventos contando e explicando conceitos, recursos, mecânicas e personagens e nomeia esses eventos de Night City Wires. Durante esses eventos no ano de 2020, fomos surpreendidos com a inesperada pandemia, que fechou comércios e empresas em todo mundo e forçou estúdios a desenvolverem jogos em home office, tal desafio teria os seus custos, atraso no desenvolvimento, assim a CD Projekt Red teve o começo de uma ladeira interminável, o primeiro adiamento de Cyberpunk 2077. Logo depois, uns 5 ou 6 meses, Cyberpunk 2077 ganha o seu segundo adiamento e depois o seu terceiro adiamento, irritando a níveis descontroláveis toda a fanbase alimentada por um hype, produto de um marketing tóxico. Assim, a paciência foi se esgotando e rumores fortes indicavam uma cultura de crunch dentro da empresa, já era de conhecimento em bastidores que o jogo não estava pronto e poderia sofrer um novo adiamento.

Contrariando as previsões, a CD Projekt reafirmou que o jogo seria lançado em 9 de dezembro. Só não esperávamos a que preço? 

História

Diferente da franquia carro chefe da CD Projekt Red, The Witcher, a nova franquia Cyberpunk 2077 não tem uma narrativa com diversos personagens já escrita em livros para se basear e conduzir o arco narrativo, já que o RPG criado pelo competente Michael Alyn Pondsmith, possui uma extensa gama de informações sobre o universo, como as diferentes gangues, mega-corporações, costumes de uma civilização e artefatos históricos sobre o clima “High Tech, Low Life”. Com mais um dos milhares de desafios, a CD Projekt teve que criar personagens, como protagonistas, antagonistas, pontos de conflito, uma jornada para o arco narrativo e seu desfecho (que possui 6 finais diferentes).

Criação Personagens Cyberpunk 2077 análise crítica review

Em Cyberpunk 2077 você assume o papel do personagem V (que pode ser masculino ou feminino), e logo de início entendemos que V será o personagem padrão de RPGs raiz, sem muito background narrativo, feito para ser moldado ao gosto do jogador. Um dos primeiros sinais que o jogo te dá é logo na tela de criação de personagem, onde você pode escolher o gênero e aparência física (sim, a grande gama de customizações prometida em materiais de marketing foi uma mentira, as opções são poucas e sem graça). Logo depois, você irá ter que escolher três Rumos de Vida (Life Path): Marginal, Corporativo e Nômade.

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  • Marginal: Como um Marginal, você conhecerá a cidade como a palma da sua mão, imerso na expansão urbana onde suas conexões são profundas, além de ter muita credibilidade e inteligência nas ruas. Sua jornada começará em El Coyote Cojo, no bar Heywood, onde você tem muitos amigos com conexões. O bar é onde você encontrará Kirk, um aliado engenhoso em Night City que irá definir uma de suas primeiras tarefas e Padre, um velho amigo de V, um consertador experiente com seu próprio motorista pessoal.
  • Corporativo: Uma posição Corporativa de alta pressão como agente de Arasaka, com um corpo cheio do mais alto software militar (e muitas drogas). Você começará na Torre Arasaka e poderá explorar a acelerada e neo militarista megacorp. É aqui que você vai se encontrar com o Agente Jenkins e começar sua história em Night City. Além da Torre Arasaka, o Lizzie’s Bar é um lugar onde você poderá se agrupar com amigos e sondar o funcionamento dos assuntos internos dentro da corporação. Você também encontrará Jackie aqui, junto com a gangue Mox. Exclusivo para a trajetória da vida corporativa é uma personagem chamada Abernathy, outra executiva de Arasaka invejada por seu subordinado Agente Jenkins. O caminho da vida corporativa fornece muita visão sobre a vida corporativa distorcida da cidade.
  • Nômade: Os Nômades geralmente são encontrados em grupos, mas você começará sozinho em Badlands, um terreno baldio pontilhado com edifícios abandonados onde você encontrará Jackie Welles. Esta trajetória de vida Cyberpunk 2077 o levará do trecho de deserto em torno de Night City direto para sua fronteira, onde você será interrogado enquanto transporta uma carga preciosa — uma iguana. Você também encontrará um xerife em suas viagens que protege uma cidade remota da corrupção e do crime.

Esses caminhos de vida afetam as primeiras horas do início do jogo, algumas opções de diálogo diferentes e só. Nada disso afetará no arco da campanha principal, mas depois irei abordar esse assunto, por enquanto voltemos à história.

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Jackie Welles será o seu grande parceiro em missões no início do jogo.

Logo depois de criar o personagem, rumo de vida e passar por três inícios diferentes (de acordo com o caminho de vida escolhido), iremos conhecer o personagem Jackie Welles, um marginal brutamontes de Heywood com um bem humorado sotaque mexicano. Ele acaba se revelando rapidamente uma ótima companhia leal, amiga e preocupado com a sua família. V, depois de muito tempo longe de Night City, decide se juntar a Jackie e fazer alguns trabalhos juntos. Após alguns trabalhos, somos convidados a participar de um roubo à maior empresa de Night City, a Arasaka.

Para isso, V e Jackie se disfarçam de empresários em um hotel luxuoso, o alvo do roubo é um chip, chamado relic. Este chip contêm uma tecnologia muito avançada capaz de armazenar toda a consciência de uma pessoa, mas o que faz este chip tão valioso não é sua tecnologia, e sim a consciência armazenada. O relic que está em posse de Yorinobu Arasaka, filho de dono da Arasaka, Saburo Arasaka, contêm a consciência de Johnny Silverhand (interpretado por Keanu Reeves), um famoso roqueiro terrorista que invadiu a Arasaka há 50 anos a fim de derrubar o prédio da megacorporação com uma bomba.

Johnny Silverhand
Johnny Silverhand será o seu maior inimigo e amigo durante a campanha principal.

Após conseguirem roubar o relic, um imprevisto fatal ocorre, e Jackie e V se envolvem em uma trama caótica familiar, tendo que fugir desesperadamente do hotel, uma segunda fatalidade ocorre e V precisa fugir do prédio com o chip instalado no seu sistema, ou seja, no seu cérebro.

Na fuga uma terceira fatalidade acontece, V desmaia, vê alucinações, acorda em um lixão e é encontrado pelo segurança de Saburo Arasaka, Takemura, e desmaia novamente. V acorda agora na mesa de operação de Viktor, um ripper doc (uma espécie de médico cirurgião que faz implantes tecnológicos) e amigo de confiança de V. Viktor tem uma notícia chocante para V: V morreu na fuga, mas o chip tecnológico, o relic, salvou sua vida, mas com um preço alto, a consciência de Johnny Silverhand tomaria pouco a pouco o seu cérebro e assumiria o seu corpo. Além disso, V não poderia remover o chip, pois o relic que o mantinha vivo, uma vez removido, o corpo morreria instantaneamente. Com uma virada tão grande de acontecimentos, V se vê dividindo o seu corpo e pensamentos com Johnny Silverhand e passa a correr em uma busca desenfreada para encontrar uma forma para  sobreviver.

Personagens

Cyberpunk 2077 conta com uma quantidade boa de personagens com os mais diversos backgrounds narrativos, cheios de dramas e personalidades que dignificam suas existências dentro do universo narrativo e ajudam a contar sobre a história dos cidadãos de Night City e as dificuldades e facilidades impostas nas mais diversas camadas da sociedade.

Começando com V, apesar de ser um personagem criado, ele conta com diversas linhas de diálogo próprias que não são moldadas por você. V é um personagem pronto, que age sozinho sem a anuência do jogador. V é um personagem explosivo, reclamão, sarcástico e ranzinza, só que sua personalidade é muito parecida a de outro “coprotagonista”, Johnny Silverhand.

O roqueiro terrorista, possui a mesma personalidade base de V, só alterando para um forte idealismo de justiça própria, uma luta individual contra as corporações e o vício de uma vida regada a drogas e álcool. É um personagem que agrega em diversos momentos chave, servindo de bússola moral e imoral para V.

Panam

Os outros personagens que se apresentam na narrativa principal possuem personalidades distintas, como forte senso de honra (Takemura), uma nômade de bom coração e que se arrisca pelos seus iguais (Panam), uma garota de programa envolvida em uma trama pesada de lavagem mental e abusos sexuais (Evelyn Parker), um roqueiro que teve que passar pelos seus ideais para continuar fazendo o que ama (Kerry Eurodyne) e vários outros. É possível também ter romances com algumas/alguns destes personagens, mas são poucas as opções que dependem de fatores adicionais.

Não só personagens da campanha principal, mas personagens da campanha secundária possuem diversos dramas que engrandecem o universo complexo, cheio de tramas políticas, sociais e históricas de Cyberpunk 2077. Cada personagem ajuda a entender os problemas vividos daquela população, contrastando a violência, pobreza, riqueza e tirania das mais diversas camadas da civilização de Night City.

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Yorinobu Arasaka, o vilão que você quase não vê e some durante a campanha inteira.

Pena que o jogo peca em antagonismo e pouco os explora, varrendo diversos vilões com soluções de roteiro pouco desenvolvidas, derrubando grandes confrontos históricos. Dexter DeShawn é apagado da narrativa, Yorinobu sequer sabe quem é V e o Adam Smasher, pouco conhecemos.

Campanha Principal

A campanha principal não é longa, mas também não chega a ser curta. Sua duração é a ideal dentro de uma narrativa tão focada, que não chega ser extremamente grandiosa. Cyberpunk 2077 não é uma história de um herói contra um império, essa era a narrativa de Johnny Silverhand, a narrativa de V é uma história de um cidadão querendo salvar a sua própria vida, nada mais simbólico que um arco de um personagem em um universo cyberpunk tentando resolver os seus próprios problemas e não se importando com o todo.

Cyberpunk 2077 conta com uma história fácil de entender e acompanhar, com diversos cacos (arquivos de texto com informações ricas para o entendimento do universo), não se complica em nada no seguimento de sua narrativa principal, mas possui um final melancólico, carente de grandes confrontos e vilões que servem como trunfos narrativos em jogos de sucesso. O grande confronto final contra o algoz de Johnny Silverhand não possui nenhuma linha diálogo, nenhum momento catártico, se reduzindo a uma simples luta contra um chefe com pouco contexto.

Missões Secundárias

Contendo a maior parte do tempo de jogo, a CD Projekt Red, famosa por ótimas narrativas em missões secundárias realizadas em The Witcher 3, se concentrou em dar um contexto maior ao universo cyberpunk nas diversas missões secundárias do jogo, e consegue mais uma vez. É nas narrativas destas missões que veremos as tramas mais interessantes do jogo, como a caça a uma espécie de serial killer que rapta jovens depressivos para serem criados como vacas em uma fazenda, o drama da artista Lizzy Wizzy, a busca de Kerry em resgatar sua música lendária das mãos do trio de cantoras de J-Pop, um assassino que deseja morrer crucificado como forma de espalhar uma mensagem para as pessoas, o drama pessoal da Panam em provar para a sua tribo de Nômades a necessidade de se protegerem enquanto lida com a resistência de um líder tradicionalista e diversas outras ótimas missões.

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A artista Lizzy Wizzy envolvida em uma trama bizarra.

São diversas linhas narrativas interessantes contidas nestas missões secundárias que fazem valer a pena prosseguir, não sendo apenas missões irrelevantes e pouco propositivas dentro de um interesse narrativo genuíno a favor de Night City. Cada trama constitui uma ideia do quão difícil é viver em uma realidade tão extremista nas suas diferenças e que se revela um ótimo exemplo de implementação de missões secundárias dentro de jogos de mundo aberto.

Gameplay

gameplay cyberpunk 2077

Indo para o tópico mais controverso do jogo e um dos mais problemáticos. Controverso porque desde o seu início o fato de ser um jogo em primeira pessoa deixou uma boa parte dos fãs da empresa insatisfeitos. Isso se deve ao fato da franquia mais famosa da CD Projekt, The Witcher, ser em terceira pessoa e ter apresentado dois grandes personagens dessa geração, Geralt e Ciri. Como é normal em jogos em primeira pessoa, o protagonista perde uma boa parte do carisma e tantos outros jogadores relataram problemas ao jogar jogos dessa forma, já que o gameplay muda substancialmente, já que em primeira pessoa o foco fica nas ações de ataque (gunplay) e no de terceira pessoa o foco é variado, versando entre movimentação e ataque. A CD Projekt alegou a adoção do modo em primeira pessoa seria essencial para maior imersão aos aprimoramentos cibernéticos e todo o universo de Night City.

Cyberpunk 2077 é um jogo de tiro, basicamente, poderia dizer que ele possui diversas outras formas de jogo, mas seu foco e proposta mais desenvolvida é o gunplay.

Sobre o gunplay, é sem dúvida a principal mecânica do jogo. Com as mecânicas de tiro como recuo da arma, disparo, velocidade, controle de mira e demais recursos, Cyberpunk 2077 entrega um divertido sistema dinâmico, com armas com diversos efeitos, como balas que ricocheteiam, seguem o alvo, balas explosivas ou elétricas, armas que falam que não faz feio a vários jogos que usam dessa mecânica e em alguns momentos chega a superar, mas não é tão profundo quanto jogos focados, como grandes FPS do mercado liderados por Call of Duty e Battlefield.

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Por outro lado, outros artefatos de combate não tiveram o mesmo cuidado e ficaram estagnados no marasmo da ausência de variedade de movimentos e possibilidades, como é o uso de espadas, faca, mão, porrete, martelos e bastões de choque. A movimentação dessas armas é reduzida, variando de um mero combo simples e um ou dois movimentos diferentes, tornando o que seria uma proposta de jogo recheada de possibilidades de experiência de gameplay, se reduzindo a um shooter.

Armas, Equipamentos e Aprimoramentos Cibernéticos

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Com uma gama muito extensa das mais diversas pistolas, metralhadoras, fuzis e escopetas, Cyberpunk 2077 é mais fácil para um jogador que deseja sair atirando por aí do que um que prefere maior furtividade. Não é difícil encontrar munição a vontade em diversos cantos e em corpos de inimigos, dificilmente o jogador ficará na mão. Não só de armas de fogo o jogo conta, ele também conta com armas brancas, como facas, katanas, tacos, porretes e a habilidade de hacking, onde é possível cegar inimigos, danificar com choque sônicos, distrai-los e diversas outras habilidades.

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O jogo conta com diversos equipamentos para customizar o seu personagem.

Além disso, como parte da customização do seu personagem, o jogo conta com uma quantidade grande de roupas como jaquetas, óculos, capacetes, camisas, tênis, calças, bonés, máscaras, sobretudos, tocas e vários outros para melhorar atributos defensivos. Apesar da grande maioria destas roupas serem berrantes, esquisitas e coloridas, grande parte só serve mesmo para atributos físicos e não como incrementos visuais, deixando a aparência do seu personagem sempre bizarra se o seu foco for melhoria de status em detrimento do visual, deixando cair por terra um dos propósitos anunciados no material de marketing, que o visual seria importante para Night City, pura besteira.

Além disso, é possível desmontar armas, equipamentos e coletar materiais necessários para criar armas e equipamentos e até mesmo melhorar os já existentes, tendo um profundo sistema próprio de criação de materiais, diversificando as possibilidades para o jogador.

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Tela de aprimoramentos cibernéticos.

Além disso, como um jogo de ficção científica, o jogo possui toda uma mecânica de aprimoramentos cibernéticos. Esse sistema é dividido em partes cerebrais, olhos, nariz, braços, pernas, corpo, espinha onde é possível instalar braços com lâminas, lançador de projéteis, peles sintéticas para reduzir dano de fogo, filtros nasais para reduzir dano de gás tóxico e vários outros usando os serviços de cirurgiões espalhados por toda Night City. Um ótimo sistema inteligente de equipamento que atua como complemento aos equipamentos tradicionais, ajudando o jogador a melhorar a sua experiência usando a tecnologia de um mundo cyberpunk.

Árvores de Habilidades Robustas

Como todo RPG de mundo aberto ultimamente, Cyberpunk 2077 conta com um sistema de árvore de habilidades completo. O jogo conta com cinco atributos diferentes e cada atributo conta de 2 a 3 árvores de habilidades cada. Residindo assim, um dos sistemas de personalização e progressão mais completos da geração.

Na medida que o jogador aumenta de nível, ele ganha 1 ponto de atributo e 1 ponto de vantagem. Os pontos de atributos, obviamente melhoram atributos gerais do personagem, com isso atributos de saúde, stamina, dano corpo a corpo, armadura, habilidade para hackear dispositivos mais avançados, abrir portas e etc são habilitados. Além disso, algumas opções de diálogo só serão liberadas se você atingir um certo nível do atributo. Os atributos disponíveis são:

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  • Corpo: Isso determina sua força geral.
  • Reflexo: A estatística Reflexos geralmente determina sua capacidade com armas de fogo, sua velocidade de movimento e sua capacidade de evasão.
  • Habilidade Técnica: Este é essencialmente o seu conhecimento sobre máquinas.
  • Inteligência: Todas as suas capacidades de hacking são baseadas nas estatísticas de inteligência, e seus pontos aqui irão determinar se você pode até mesmo tentar hackear certos sistemas de computador.
  • Moral: Esta estatística é sobre suas habilidades furtivas e compostura sob pressão.

Agora, cada atributo possui árvores de habilidades, cada árvore de habilidade contêm diversas habilidades específicas, como aumentar dano de pistolas, fuzis, metralhadoras, armas brancas, melhorar a recuperação de stamina, hacks darem mais dano, reduzir RAM necessária para uso e diversos outras habilidades.

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Cada atributo conta com mais de uma árvore de habilidades.

Com uma extensa diversificação de possibilidades para personalizar o seu V, o jogo te dá oportunidades diferentes de gameplay, oferecendo ao jogador moldá-lo às suas necessidades. Infelizmente o caminho para um V mais furtivo é muito mais árduo, um V hacker se torna inviável no começo, já que aprimoramentos cibernéticos que valham a pena são caros demais para  um início, forçando o jogador a adotar uma postura mais combativa o que acaba desmotivando o jogador a continuar com um set mais personalizado, deixando em desuso diversas outras boas habilidades.

Night City e Veículos

Mapa de Night City
Night City conta com diversos pontos de interesse. Localizando missões, lojas, carros e etc.

Alguém lembra dos materiais promocionais pré-lançamento? Com uma cidade viva, vibrante, com diversos carros e uma sociedade pulsante, invadindo aos montes as ruas e largas avenidas de Night City, o sentimento de poder explorar os mais diversos arranha-céus e a capacidade de achar grandes acontecimentos em cada esquina da cidade mais bem vendida da história dos games? Pois é, nada disso era real e foi entregue.

“⁠Eu amo esta cidade. A cidade das oportunidades infinitas. As lendas nascem aqui.”

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As ruas de Night City “cheias” de gente.

Night City é uma cidade bem construída, nota-se um ótimo trabalho na projeção da cidade com viadutos, pontes, largas avenidas, lixões e periferias, mas é um cenário de papelão. Não é possível explorar os mais diversos prédios e corporações, nada disso é aproveitado em razão do gameplay. As pessoas na rua são poucas, iguais, fazem as mesmas coisas e possuem as mesmas falas. Uma quantidade bem reduzida de NPCs se destacam e geralmente estão localizados em áreas importantes para a história, colocadas estrategicamente para dar a falsa sensação de uma variedade.

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Indo para os meios de transporte, Cyberpunk 2077 conta com uma variada quantidade de veículos. Com designs próprios e uma física terrível, os carros do jogo só diferenciam pelos pesos, mas são todos assustadoramente incontroláveis. Em diversos momentos você terá a sensação de estar dirigindo em uma pista ensaboada, perdendo o tempo inteiro o controle do veículo, ainda mais em altas velocidades. O único tipo veículo onde esse problema é atenuado são as motos, mas todos os veículos possuem uma mecânica de batida inexistente.

IA Terrível e a Propaganda Enganosa das Escolhas

 

Uma das coisas mais graves em jogos, é inteligência artificial preguiçosa e o desenvolvimento de Cyberpunk 2077 está repleto de exemplos. Começando com NPCs sem rotinas diárias, incapacidade de subir em escadas, reações porcas referente à situações como um tiroteio, carros que não desviam de obstáculos e na contramão, IA da polícia de Night City que possui um dos mais terríveis sistemas de spawn. Cyberpunk 2077 é uma bagunça de decisões equivocadas e ridículas em termos de desenvolvimento de IA. Esses problemas não chegam a prejudicar a IA de inimigos, que apesar de possuírem uma IA básica, ainda assim continua satisfatoriamente média para um jogo da atual geração e garantem o mínimo de desafio durante o gameplay.

Esse problema também passa pela ausência de “ação e reação” no jogo. Foi anunciado antes do seu lançamento que Cyberpunk 2077 teria um sistema de escolhas que afetariam e resultariam consequências durante o gameplay, como matar determinado NPC poderia desencadear uma soma de missões com consequências diversas, trilhando uma árvore de caminhos diferentes oferecendo campanhas únicas, isso nem chega a passar perto de acontecer. Fallout 4 é muito mais rico nesse sentido do que Cyberpunk 2077, até Detroit: Become Human consegue ser mais profundo com as diversas ramificações da história baseado em ações tomadas pelo jogador.

Cyberpunk 2077 não é um jogo baseado em escolhas, o marketing mentiu, se você roubar uma loja, o vendedor não irá chamar a polícia, não há uma linha de código desenvolvida para causar uma reação a roubar item de uma loja, isso existe até em Deus Ex de PS3, mas não no “jogo revolucionário”. Se você matar um membro de determinada gangue, não haverá uma reação da gangue, todas as escolhas do jogo não afetarão a estrutura da campanha, a estrutura das missões secundárias e do ecossistema de Night City. Suas ações não tem consequência em Night City, a menos que você mate alguns cidadãos na rua e surja a polícia com uma IA terrível surgindo nas suas costas instantaneamente.

Gráficos

Cyberpunk 2077 crítica

A cidade é bonita com seus 15 distritos bem representados. Luzes de neon varam a noite iluminando os luxuosos prédios em contraste com uma vida marginal, recheado de viciados, garotas de programa, ladrões que vivem em casas apertadas, muquifos escuros, ruas invadias, sem tetos e muito lixo, isso tudo espalhado pela cidade. Veículos voadores de carga que sobrevoam o céu o tempo inteiro demonstra o abismo econômico causado por empresas mandando na sociedade, sem dúvida, Night City foi construída para retratar uma condição real de um mundo cyberpunk, ponto para a direção de arte da CD Projekt quanto essa recriação a fim de estabelecer a imersão necessária ao jogador entender o tipo de realidade que o jogo quer te passar.

“⁠Quer testar os valores de uma pessoa? Faz ela encarar a morte.’

Um dos poucos setores que conseguiu estabelecer um bom trabalho, a direção de arte estampou algumas marcas que deixam qualquer jogo conhecido, como o alto uso da cor amarela e cores de neon, como roxo, magenta e azul, tornando-o um mundo cyberpunk mais colorido do que o habitual visto em outras obras do audiovisual como o filme Blade Runner ou Ghost in the Shell. Além disso, é possível ver um cuidado com a modelagem de alguns personagens, como a Panam, Judy, Evelyn, Takemura, Alt e vários outros, mas outros personagens possuem trabalhos que hora são porcos, hora conseguem manter a qualidade, como a do Johnny Silverhand. Cyberpunk 2077 não é um jogo com os melhores gráficos de um jogo de mundo aberto.

Cyberpunk 2077 análise crítica review

Apesar de ter havido uma melhora em comparação a apresentação de gameplay realizada em 2019, Cyberpunk 2077 não consegue fazer nada de espetacular em termos técnicos. As expressões faciais são as mais protocolares possíveis, não chegando a serem espetaculares, mas não atrapalhando a experiência. Em nenhum momento você ficará boquiaberto com algo técnico acontecendo, é um jogo protocolar. Há vezes que você verá Johnny Silverhand com belas expressões e vezes que verá ele mal modelado e com um bug de efeito digital quadrado e porcamente recortado contornando o personagem. Falando em bug, eles são vários.

Mais Bug do que Promessa Entregue

Cyberpunk 2077 é um jogo bugado, nessa etapa em que escrevo esse review, você já saiba deste fato. De quedas de framerate absurdas, congelamentos enquanto dirige o carro, objetos que somem, erro de renderização de texturas, atraso na resposta de comandos básicos, pedestres e até carros que surgem do nada na sua frente fruto de uma ausência de renderização triste, o jogo é um desastre técnico.

Em combates, é normal quedas de fps e até ao acessar o menu isso ocorre, é bizarro. Além disso o jogo chegou a fechar incontáveis vezes nos mais diversos pontos do gameplay, deixando um desespero e despertando raiva no jogador.

Claramente Cyberpunk 2077 não é um jogo sequer pronto, é uma beta que foi forçada a ser lançado por conta de uma pressão interna da parte administrativo da CD Projekt Red.

Trilha Sonora e Som

Como sempre, o setor artístico salvando áreas em que domina. A trilha sonora do jogo conta com os mais variados estilos, desde a parceria com a banda Refused se tornando a banda SAMURAI do jogo até músicas mais experimentais, como a da banda brasileira DEAFKIDS.

 

O jogo conta com um set de músicas variadas, caminhando do rock, passando para o techno, pop, hip hop e diversos outros gêneros, tudo de muito bom gosto, mas espalhadas de forma desorganizada na rádio dos veículos. São tantas músicas que faltou um norte adotado pela direção de trilha sonora, deixando a marca  registrada musical do jogo, não uma salada de estilos. Não chegam a serem música ruins, mas são músicas subaproveitadas.

Por outro lado, a dublagem do jogo (apesar de poder enfrentar severas críticas quanto ao exagero do sotaque carregado carioca adotado) chega a engrandecer o jogo. Adotando um sotaque informal e despojado, com diversas gírias, frases de contendo memes famosos brasileiros e muito palavrão, o jogo conquistou uma localização genial, adaptando diversos termos à língua portuguesa brasileira que acabou agregando ao pacote de diversão numa experiência de jogo. Há o sistema anunciado antes, de sincronia labial automática deixando tudo muito mais crível e bem montado. Há pequenos exageros na dublagem, como o caipirês exageradamente cômico dos nômades, mas nada que chega a prejudicar ao belo trabalho da dublagem brasileira.

Vale a Pena?

Cyberpunk 2077 análise crítica review

Cyberpunk 2077 é um case a ser evitado por qualquer estúdio e desenvolvedora de games e será exemplo para diversos ensinamentos. O legítimo jogo onde a equipe administrativa e criativa tiveram muito mais voz que a equipe técnica e de desenvolvimento. Um jogo que possui acertos no campo de roteiro, com uma história bem construída, campanha principal que não se prejudica por falta de foco, uma caracterísitca de narrativas de jogos mundo aberto, missões secundárias que chegam até serem mais interessantes que a campanha principal e uma direção de arte que consegue fazer o possível para entregar um estilo próprio, pena que isso tudo foi engolido por diversos tropeços na administração do projeto.

Cyberpunk 2077 não é nada inovador e não será exemplo positivo pra ninguém. Não entrega um jogo cheio de possibilidades, não fornece um jogo baseado em escolhas, não tem um gameplay estonteante, nem gráficos de cair o queixo. É um simples jogo de RPG, em primeira pessoa de mundo aberto, com um competente sistema de personalização e inacabado.

Um jogo que possui uma infinidade inaceitável de bugs, má performance, decisões ruins de IA, sendo assim um jogo protótipo de algo maior. Poderia dizer que era pra ter sido um jogo de próxima geração, mas da forma que ele foi montado, sua concepção foi um erro que tampouco será solucionado e voltará ao seu estado de expectativa inicial se fosse portado para o PS5.

⁠”Você nunca recuou na sua vida em nenhum aspecto, mesmo quando deveria. Você anda por Night City sabendo que uma bala perdida pode te matar numa viagem de taxi. Mas isso nunca o impediu de cair na ação”

Hoje ele não vale a pena. Cyberpunk 2077 é um jogo que prometeu uma experiência diferenciada, mas trouxe uma experiência ruim para um jogo AAA. Com um discurso ego centrista exagerado, uma criação de hype estúpida, adoção de propaganda enganosa e uma tomada estratégica errada para influenciar notas de reviews, a CD Projekt Red foi pioneira em ser a primeira grande empresa a ter seu jogo removido da PlayStation Store por conta do equivocado estado do seu jogo e tão equivocado quanto a decisão de anunciar reembolso sem comunicar a plataforma de venda.

Por isso antes de qualquer compra, peço que aguarde as atualizações prometidas para o Cyberpunk 2077 pela CD Projekt Red para ter uma experiência digna. E se você ainda assim não quiser jogá-lo, está no seu direto, não perderá muita coisa.

Notas do Jogo

Título: Cyberpunk 2077

Descrição do jogo: Cyberpunk 2077 é uma história de ação e aventura de mundo aberto ambientada em Night City, uma megalópole obcecada por poder, glamour e biomodificações. Você joga como V, um mercenário fora da lei atrás de um implante único que carrega a chave da imortalidade.

Nota
6.8/10
6.8/10
  • História - 8/10
    8/10
  • Jogabilidade - 6/10
    6/10
  • Gráficos - 5/10
    5/10
  • Trilha Sonora e Som - 8/10
    8/10

Veredito

Cyberpunk 2077 é um case a ser evitado por qualquer estúdio e desenvolvedora de games e será exemplo para diversos ensinamentos. O legítimo jogo onde a equipe administrativa e de criativa teve muito mais voz que a equipe técnica e de desenvolvimento. Um jogo que possui acertos no campo de roteiro, com uma história bem construída, campanha principal que não se prejudica por ser um jogo de mundo aberto, missões secundárias que chegam até serem mais interessantes que a campanha principal e uma direção de arte que consegue fazer o possível para entregar um estilo próprio, pena que isso tudo foi engolido por diversos tropeços de administração de projeto.

Vantagens

  • Boa campanha principal.
  • Boas missões secundárias.
  • Personagens desenvolvidos.
  • Gunplay divertido.
  • Árvore de Habilidades robusta e completa.
  • Direção de arte competente.
  • Localização da dublagem brasileira divertida e muito boa.

Desvantagens

  • Antagonistas com péssimo desenvolvimento.
  • Escolhas e consequências inexistentes.
  • Gameplay com armas brancas limitado.
  • Personalização de aparência física limitada.
  • A Inteligência Artificial de NPCs e polícia dos jogos AAA mais ridícula.
  • Física de veículos terrível.
  • Mecânicas de gameplay prometidas inexistentes.
  • Uma cidade bela, mas morta.
  • Quedas constantes de fps, renderização, textura, bugs e crashes constantes.