Joel é um dos personagens mais amados de The Last of Us, da Naughty Dog — e também um dos mais moralmente complexos dos videogames. O que torna sua jornada tão marcante não são os atos heroicos, mas as escolhas brutais que ele justifica em nome do amor. A mais decisiva é a morte do pai de Abby, o cirurgião Jerry Anderson, que Joel mata no hospital para salvar Ellie — o gatilho de toda a vingança que move The Last of Us Part 2.
Mas essa não foi a única vez em que Joel cruzou a linha. Abaixo, analisamos as 5 vezes em que Joel foi longe demais — não apenas o que ele fez, mas por que cada decisão pesou e o que ela revela sobre um homem disposto a condenar o mundo para salvar uma pessoa.
Atenção: spoilers pesados do primeiro jogo e da Parte II a seguir.
5. Quando Joel se torna um contrabandista
Antes de ser o protetor de Ellie, Joel já havia se tornado alguém que muitos não reconheceriam. Depois de perder a filha, Sarah, na noite do surto, ele passou vinte anos endurecendo até virar contrabandista na zona de quarentena de Boston, ao lado de Tess. O detalhe que a maioria esquece é o que o próprio irmão, Tommy, revela: houve um período em que os dois agiram como caçadores — emboscando e matando viajantes por seus suprimentos. Foi justamente isso que fez Tommy abandoná-lo para se juntar aos Vaga-lumes.
Por que isso conta como “ir longe demais”? Porque estabelece a régua moral de Joel muito antes de Ellie entrar em cena. Ele não é um homem bom que comete um ato terrível no fim — é alguém que já cruzou a linha da violência utilitária para sobreviver. O jogo não mostra tudo o que ele fez nesses anos, e esse silêncio é proposital: quando Joel massacra os Vaga-lumes no final, não é uma ruptura de caráter, é a continuação de quem ele sempre foi. Entender isso muda a leitura de todo o resto.
4. Quando Joel age como um pai superprotetor na festa
Este é o “longe demais” mais sutil da lista — e o único em que o exagero não é violência, mas controle. Já em Jackson, durante uma festa, Ellie e Dina se beijam na pista de dança e um morador, Seth, faz um comentário homofóbico. Joel se levanta na hora para defendê-la. O gesto é nobre no impulso, mas Ellie reage com raiva, não gratidão.
A cena parece pequena, mas condensa a tragédia central da relação dos dois. Joel confunde proteger com controlar — a mesma lógica que o levou a decidir sozinho o destino de Ellie no hospital, sem consultá-la. Ele nunca conseguiu tratá-la como uma pessoa autônoma, apenas como alguém a ser salvo, custe o que custar. O ressentimento dela na festa é o eco distante da maior de todas as suas transgressões: tirar dela o direito de escolher o próprio fim. É por isso que a cena está aqui — não pelo que Joel faz, mas pelo padrão que ela expõe.
3. Quando Joel mata Marlene a sangue frio
Aqui está, talvez, o ato mais frio de Joel — mais até que matar Jerry. A diferença é crucial: matar o cirurgião foi reativo, no calor da ação, para tirar Ellie da mesa de operação. Matar Marlene foi premeditado e evitável. No estacionamento, Ellie já estava a salvo no carro, o médico já estava morto, e Marlene abaixou a arma e ergueu as mãos em sinal de paz. Joel poderia simplesmente ter ido embora. Em vez disso, atirou nela; ferida, ela implorou pela vida, e ele a executou à queima-roupa, justificando: “você viria atrás dela”.
E há uma ironia trágica que torna o ato ainda mais sombrio — e que rende horas de debate entre os fãs. Ao matar o cirurgião momentos antes, Joel já havia destruído a única chance de vacina que existia; sem Jerry, os Vaga-lumes não tinham mais motivo médico para caçar Ellie. Ou seja, Joel matou Marlene para eliminar um perigo que ele mesmo já havia neutralizado. Foi um assassinato movido por medo, não por necessidade real. É o momento em que fica claro que o amor de Joel por Ellie deixou de ser proteção e virou possessão: ele não elimina uma ameaça, ele elimina qualquer pessoa que poderia, um dia, questionar a escolha que ele fez por ela.
2. Quando Joel mente para Ellie sobre os Vaga-lumes
Se matar Marlene foi o ato mais frio, mentir para Ellie foi o mais duradouro. Ao acordar no carro, Ellie pergunta o que aconteceu. Joel inventa que havia outras pessoas imunes, que os Vaga-lumes não conseguiram produzir a cura e desistiram. A verdade — que ela seria morta na cirurgia e que ele impediu tudo à força — fica enterrada.
O que torna essa mentira a transgressão definitiva não é o momento, mas a escolha de mantê-la por anos. Considerando a lógica do próprio Joel (ele acredita que os Vaga-lumes ainda buscam a cura), ele poderia ter contado a verdade e deixado Ellie decidir se procuraria o grupo ou ficaria em Jackson. Ao mentir, ele rouba dela não só uma informação, mas o direito de dar sentido à própria vida — o mesmo direito que já havia tirado no hospital. É a prova de que seu amor é, no fundo, egoísta: importa mais tê-la por perto do que respeitá-la como pessoa. E é essa mentira, mais que qualquer bala, que envenena a relação dos dois na Parte II e assombra Ellie até o fim.
1. Quando Joel mata o pai de Abby, Jerry
O ato que sela o destino de Joel acontece no Hospital St. Mary, em Salt Lake City. Ao saber que a vacina exigiria a morte de Ellie, Joel invade o centro cirúrgico. Lá está Jerry Anderson, o cirurgião-chefe dos Vaga-lumes e pai de Abby. Jerry tenta detê-lo — chega a empunhar um bisturi —, mas Joel atira nele à queima-roupa. Ele não sabia quem era aquele homem, nem que estava assinando a própria sentença de morte.
Este é o número 1 não pela brutalidade, mas pela consequência em cadeia. Diferente dos outros atos, cujo custo recai sobre Joel e Ellie, este cria uma vítima com nome, rosto e futuro: Abby, a filha de Jerry, que encontra o corpo do pai e passa os quatro anos seguintes planejando vingança. Ela rastreia Joel até Jackson e o executa — dando início ao ciclo de violência que sustenta toda a Parte II e que, por sua vez, lança Ellie em sua própria jornada de vingança.
É o que faz desta a transgressão máxima: Joel não matou um vilão anônimo, matou o pai de alguém — e a genialidade da narrativa da Naughty Dog é forçar o jogador, na sequência, a viver a história pelo ponto de vista de Abby, entendendo que o “monstro” da vez é apenas uma filha fazendo exatamente o que Joel faria. Ao ir longe demais para salvar a sua filha adotiva, Joel condenou a filha de outro homem — e a si mesmo.
E não foi só Joel que cruzou limites nesta saga. Veja também a nossa análise completa de The Last of Us Part 2.






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