Review de Call of Duty: Modern Warfare 4 – Nada Novo, Mas Tudo No Seu Lugar


Call of Duty Modern Warfare 4 Capa Arte Promo

O ritmo anual de Call of Duty cobrou seu preço nos últimos anos. Entre os Modern Warfare de 2022 e 2023 e os Black Ops de 2024 e 2025, a saturação da franquia virou um fato concreto: mesmo quando um jogo melhorava em relação ao anterior, as vendas caíam e a frustração dos fãs de longa data só crescia. É nesse cenário delicado que chega Call of Duty: Modern Warfare 4, diante de um público cansado e desconfiado.

O peso sobre a Infinity Ward é ainda maior porque o estúdio carrega a bagagem do controverso Modern Warfare II. Desta vez, ele reconheceu que exagerou na dose e prometeu outra abordagem: um retorno às origens na campanha e no multiplayer, mais foco em cada modo e uma versão repaginada do terceiro pilar, o DMZ. Não é um lançamento qualquer, aliás: este é o 23º jogo da série e o quarto e último capítulo do reboot de Modern Warfare iniciado em 2019, o ponto final de uma linha temporal que precisava, enfim, de um bom desfecho. Ele chega para PS5, Xbox Series X|S, PC e, pela primeira vez em mais de uma década, também para o Nintendo Switch 2.

A pergunta que fica, então, é direta: depois de anos de decepção, Modern Warfare 4 consegue reconquistar os jogadores, ou é melhor deixar passar?

Call of Duty: Modern Warfare 4 foi lançado no PlayStation 5 em 23 de Outubro de 2026.

Nosso Gameplay de Call of Duty: Modern Warfare 4

História

Price e Aliada com armas apontadas Call of Duty Modern Warfare 4

Modern Warfare 4 se passa algum tempo depois de Modern Warfare 3 e divide sua campanha entre duas frentes. De um lado, o Capitão Price, agora operando fora da lei após matar o General Shepherd, caça o Arqueiro, uma figura misteriosa apontada como o cérebro por trás de tudo. Do outro, o Soldado Park, do exército sul-coreano, que vê sua terra ser engolida quando a Coreia do Norte lança uma invasão após décadas de cessar-fogo. A estrutura alterna entre os dois, com Price tentando desarmar, nos bastidores, os planos que explodem no arco de Park. Velhos conhecidos como Makarov ainda marcam presença, mas desta vez não é ele quem puxa os cordões.

Confesso que comecei com expectativas baixas. Depois da narrativa cada vez mais embolada dos jogos do reboot, eu duvidava que a Infinity Ward fosse entregar ao Price e à Força-Tarefa 141 a despedida que mereciam. A boa surpresa é que o jogo soube podar o excesso, cortando personagens e subtramas que só pesavam antes, e devolveu à campanha uma energia que a série não tinha há tempos. A abertura é uma aula de ritmo: você é pego por um bombardeio no centro de Seul e, logo em seguida, a narrativa recua cinco dias. É um truque velho de cinema, mas aqui funciona, com transições suaves entre o tiro em primeira pessoa e as cenas em terceira.

Capitao Park Call of Duty Modern Warfare 4

O verdadeiro coração da campanha é o arco coreano, e disparado o ponto alto de tudo. Pela primeira vez na série, controlamos soldados comuns, muitos cumprindo serviço obrigatório, e não os operadores de elite de sempre. O esquadrão de Park soa como um grupo real de gente que convive há tempo, com química genuína e humor, caso daquela discussão boba sobre o Wu-Tang Clan no meio da operação, ou do Cabo Dunn tentando se encaixar apesar do choque cultural. É brega na medida certa, e o efeito é que você passa a se importar com o que vai acontecer com aquelas pessoas. Ajuda que a devastação em larga escala, marca registrada de Modern Warfare, volte com força: os ambientes são vastos e reativos, e uma simples granada numa rua movimentada desencadeia um caos de estilhaços e destroços com realismo assustador.

O outro pilar emocional é o próprio Price, e aqui está a melhor tensão dramática do jogo. É um homem que perdeu demais, cujo desejo de vingança começa a turvar o julgamento e a colocá-lo contra a própria família. O momento mais dilacerante vem quando Ghost e Gaz são enviados para capturar o antigo capitão, com a morte de Soap ainda pesando sobre todos. Por baixo da hostilidade entre Price e Ghost, há a verdade incômoda de que nenhum dos dois quer perder outro irmão. Dá um peso real ao que, de outra forma, seria só mais um thriller militar.

Arqueiro vilao Call of Duty Modern Warfare 4

O grande ponto de interrogação é o Arqueiro, vivido por Mads Mikkelsen. A escalação impressiona, porque ele tem exatamente o tipo de presença silenciosa e intimidadora que o papel pede. O problema é que o jogo o desperdiça. A revelação sobre quem ele é soa mais como uma provocação a Modern Warfare 3 do que como uma virada de verdade, e a tentativa de transformá-lo no mentor único por trás de todos os eventos não convence, justamente porque cada jogo anterior teve seu próprio vilão e sua própria região. Tanto Mikkelsen quanto Ri Ju-Young, outra ótima atuação, ficam subaproveitados.

No balanço, a campanha entretém mais do que emociona, e tropeça justamente quando tenta amarrar a história fragmentada do reboot num nó só. Em cerca de 6 a 8 horas, ela passa por Seul, Coreia do Norte, Nova York, Paris e Mumbai, e vários arcos e momentos importantes soam apressados. A invasão norte-coreana, por exemplo, começa tensa, mas perde fôlego quando fica claro que tudo se resume à cidade de Hajin e dura só alguns dias, longe da escala das invasões do Modern Warfare 3 original. Nem tudo é impecável: a IA inimiga vacila em alguns momentos, com soldados que deslizam pelo cenário, encaram sem atirar ou, no extremo oposto, viram esponjas de bala. São deslizes pontuais que não afundam o conjunto. No fim, é uma boa história de guerra, sustentada por um arco coreano envolvente e por uma despedida à altura de Price, mesmo quando a trama maior não se segura em pé.

Campanha

Capitao Price Call of Duty Modern Warfare 4

O maior acerto da campanha está na variedade do design de missões e no bom senso da Infinity Ward sobre quando deixar a ação gritar e quando baixar o ritmo para a coisa respirar. Num momento você ancora o avanço sul-coreano rumo a Hajin sob fogo pesado com a Sierra-1; no outro, se infiltra ao lado de Ghost e Gaz para capturar o próprio Price. Diferente do vício comum de COD, aqui a segunda metade não desanda, e no Veterano algumas missões finais surpreendem de verdade, como um ponto de estrangulamento numa prisão subterrânea.

O que mais eleva o conjunto é a profundidade dada aos dois lados. Onde jogos antigos transformavam as forças norte-coreanas em alvos sem rosto, aqui a campanha explora a perspectiva deles e reduz tudo a uma verdade crua: são todos seres humanos presos no mesmo horror. É um retrato realista das consequências da guerra sobre o cidadão comum, um tema que a série fazia bem no passado e que voltou com força. A missão de abertura, Mayhem, resume isso: a invasão explode num piscar de olhos, em desvantagem numérica e de armamento, com você focado em pequenas ações para salvar quem der, enquanto tudo desmorona ao redor. É opressivo e sujo na medida certa.

Mundo Aberto Coreia do Norte Call of Duty Modern Warfare 4

A missão mais ambiciosa, e também a mais divisiva, é Stranded (Encalhado). Largado atrás das linhas inimigas com nada além de uma pistola, você cruza o interior norte-coreano explorando pontos de interesse a pé, montando seu arsenal aos poucos e atacando os objetivos como quiser. É a tentativa do jogo de abraçar uma lógica mais sandbox, fugindo da linearidade do resto da campanha, e um aperitivo da mecânica de extração que aparece em outras partes. Essa liberdade é, o grande ponto alto da campanha. O problema é que ela cobra um preço em atrito: trechos que recomeçam do zero ao menor erro, como rastejar por um túnel de contrabandistas minado, além de lidar com Drones Bomba e de alternar desajeitadamente entre andar e nadar na neve. É uma missão que divide justamente por ousar, acertando na proposta e tropeçando na execução.

Já o ataque anfíbio a Seul remete às origens da série no Dia D, com aquela velha mágica de COD de encarar um alvo brutalmente bem defendido, da Normandia à paisagem urbana coreana. Só que a execução expõe um vício irritante do jogo: afastar-se do comandante te mata na hora, com uma dica mandando seguir o líder do esquadrão. Isso se repete à exaustão e, logo depois da liberdade de Stranded, voltar a esse trilho de montanha-russa é uma frustração e tanto.

Capitao price neve campanha Call of Duty Modern Warfare 4

Entre os dois protagonistas, Park leva a melhor. Pela primeira vez controlamos soldados comuns, muitos no serviço obrigatório, e o esquadrão dele soa como gente de verdade, humanizada e com humor. Quando Park expressa o horror de ter que voltar à guerra depois de já ter vivido um inferno, a cena soa mais real do que quase tudo o que a série já fez. O arco de Price, ainda que ótimo, não alcança a mesma força, e voltar às suas operações depois da linha de frente coreana causa uma leve desconexão, como se fossem duas campanhas disputando atenção. Em compensação, ele traz o alívio cômico de virar uma espécie de John Wick dizimando inimigos sozinho, com direito a corpo a corpo, aparar golpes e perseguições de movimentação surpreendentemente precisa, sobretudo depois da aliança improvável com Valeria, cujas falas, convenhamos, às vezes exageram na dose.

Há ainda momentos de peso moral raros para a série, como uma fase em que você assume um soldado norte-coreano aterrorizando uma vila atrás de um dissidente, com o nível de brutalidade a seu critério. É implacável e desconfortável, só um pouco sabotado por te fazer caçar colecionáveis no meio do horror. Vale registrar que o enxugamento da história teve um preço alto: vários personagens queridos morrem, muitas vezes de forma brutal e sem aviso, e a câmera chega a se demorar nos corpos para deixar claro que não voltam. No lugar deles, entram rostos novos, de um Arqueiro divertido de odiar vivido por Mads Mikkelsen a um ótimo Ko, de Lanny Joon. A maioria é pouco desenvolvida, mas o ritmo é tão acelerado que você quase não repara, com a exposição sussurrada enquanto você recolhe munição e placas de armadura dos mortos.

irma capita coreia norte vila Call of Duty Modern Warfare 4

Também é preciso dizer que, no fim, isto ainda é uma campanha de Call of Duty. Há o botão segurado para se despedir, os QTEs bem disfarçados, a furtividade que te manda ao checkpoint ao menor deslize e as hordas abatidas de forma quase cômica. A segunda metade abusa de inimigos blindados, sobretudo os de espingarda que te apagam rápido, o que impõe um ritmo mais metódico, à la Ready or Not, quebrado só pela IA que teima em ignorar seus aliados e focar apenas em você. E ela é curta, ainda que mais longa e caprichada que a de Modern Warfare 3 (2023) ou Black Ops 7.

No balanço, é a melhor campanha da série desde o reboot, e de longe. Nada de gás alucinógeno, ganchos de escalada, controle mental ou chefões gigantes mandando atirar nas mãos deles: é realista, relativamente crível e, como ponto final desta linha temporal, entrega uma história com arcos bem resolvidos, apresentação técnica estelar e real envolvimento emocional, algo que a série vinha perdendo havia anos. Não destrona as grandes campanhas de duas décadas de COD, e ainda tropeça na liberdade que mal experimenta, mas é um desfecho digno de quem acompanhou essa jornada desde 2019.

Gameplay

Se a campanha tem altos e baixos, o combate em si é impecável, e é ele que sustenta tudo o mais. Atirar é uma delícia, e a movimentação está fenomenal. Não se trata do Omnimovement: a sensação lembra mais a de Modern Warfare 2 (2022), só que com um nível de resposta constante que poucos jogos de tiro entregam. Onde a concorrência costuma travar certos movimentos, aqui o personagem faz o que você manda no instante em que você manda, com controle firme até ao escalar ou deslizar.

Os tiroteios são dinâmicos e pesados, com armas em geral fáceis de domar e um impacto real a cada bala que conecta. Acerte a perna de um inimigo da IA e ele desaba, rasteja para se cobrir ou rola de costas à espera do fim. Contra outro jogador, o feedback sonoro dos impactos se acumula a cada disparo, ajudando a manter a mira, e derrubar um oponente chega a ser perturbadoramente satisfatório.

Pode ser que nem todas as armas agradem ao seu estilo, mas é certo que você vai achar a sua. Esses tiroteios fluidos e envolventes são o alicerce do jogo, a base sólida sobre a qual todo o resto se ergue. E a boa notícia é que, neste ano, as camadas construídas por cima dessa base também estão à altura.

Modo DMZ

Soldado apontando arma modo dmz Call of Duty Modern Warfare 4

A mesma filosofia de priorizar a diversão se estende ao DMZ, e aqui está uma das maiores surpresas do pacote. Diferente de Modern Warfare 2, em que o modo era um apêndice preso ao Warzone, agora ele é independente e completo: um extraction shooter de verdade, com progressão própria, missões de história, criação de itens e um mapa enorme que sempre te convence a arriscar mais uma incursão. Quem apresentou o DMZ como um experimento promissor em 2022 dificilmente imaginaria que ele viraria peça central de um COD, mas foi exatamente o que a Infinity Ward construiu sobre aqueles alicerces.

A estrutura é inteligente porque acolhe todo tipo de jogador. As Missões da História servem a quem não curte o gênero de extração, com objetivos claros e sem aleatoriedade; a Exploração Livre atende a quem quer criar as próprias aventuras; e as Operações Dinâmicas ficam no meio-termo, guiando você no início antes de soltá-lo no mapa. As Missões da História, em especial, são um destaque: longe de serem coleta glorificada, elas trazem encontros elaborados, quase como raides, com múltiplos objetivos e inimigos cada vez mais perigosos, caso de um assalto ousado a um cassino ou da invasão de um laboratório tomado por robôs caninos.

soldados pendurados corda aviao modo dmz Call of Duty Modern Warfare 4

A estrela, porém, é Hajin. O mapa parece uma zona de guerra real, compacta mas densa, com áreas urbanas extensas, complexos militares, instalações fortificadas e uma verticalidade impressionante, cheia de cantos onde um inimigo pode estar à espreita. E não espere passeio no parque: a IA é implacável, do helicóptero de ataque que surge na sua frente ao franco-atirador que te acerta pelas costas na pior hora. Como em qualquer bom extraction shooter, o jogo recompensa quem joga rápido e agressivo, embora dê liberdade para seguir no seu próprio ritmo.

O que amarra tudo é a progressão, e ela é viciante. Entre uma incursão e outra, você volta à sua base de operações, o refúgio onde aprimora estações, fabrica equipamento, gerencia operadores e reinveste o que extraiu para deixar as próximas missões mais rendosas. O detalhe que faz a diferença é que cada recurso importa: aquela sucata achada num prédio aleatório pode ser justamente o material que faltava para uma melhoria. O efeito é que cada extração bem-sucedida vira uma pequena vitória, e as recompensas generosas aproximam o DMZ menos de um extraction shooter puro e mais de um roguelike, o que ameniza a dor de ser emboscado. Sustentado pela mesma mecânica de tiro e movimentação refinadas do resto do jogo, é facilmente um dos melhores multiplayer do ano, com apelo para quem curtiu Arc Raiders ou Marathon.

Nem tudo está redondo, no entanto. O maior problema é a falta de conteúdo em alguns cantos: as Operações Dinâmicas têm um leque limitado de objetivos e a Exploração Livre oferece poucos tipos de missão no mapa, algo que a Infinity Ward precisará suprir com atualizações. Alguns sistemas também soam complicados demais, sobretudo os requisitos de criação e a montanha de materiais para gerenciar. E há o atrito inevitável do gênero: por mais caprichadas que sejam as missões e por mais recompensadora que seja a progressão, outro esquadrão pode aparecer e te apagar em segundos. Eu não gostaria que a ameaça de outros jogadores sumisse de vez, mas ela torna a experiência bem desigual dependendo de quem você cruza, até para o jogador casual, num gênero que vem pendendo cada vez mais para os veteranos.

Multiplayer

Grupo multiplayer Call of Duty Modern Warfare 4

O multiplayer segue a mesma filosofia de volta às raízes da campanha. Fora o realismo exagerado e a influência do Warzone que incomodaram em Modern Warfare 2019 e II, e fora também o Omnimovement frenético de Black Ops 6 e 7, em favor de uma movimentação mais próxima de Modern Warfare III. O resultado é um modo que não arrisca muito, mas que, no equilíbrio, é bem mais divertido e justo do que os últimos lançamentos da franquia.

Os fundamentos são sólidos, e o tiroteio segue sendo o padrão-ouro do gênero: armas pesadas, barulhentas e deliciosamente impactantes, com feedback impecável. O TTK ficou um pouco mais rápido que o de MW3, porém sem a sensação de morte instantânea, e o balanceamento melhorou bastante, cortando o poder de abate com um tiro de snipers e espingardas para dar vez a outras classes. O arsenal não é o mais inovador, com clássicas como M4 e AK-47 ao lado de novidades, mas todas são ótimas de usar. A criação de classes também abraça a simplicidade: escolhe a arma, monta no Armeiro, define três vantagens e pronto. As vantagens foram rebalanceadas para forçar escolhas reais, o que é positivo, embora remover as facções tenha criado o velho problema de confundir aliado com inimigo, algo que deve piorar no Hardcore.

inimigos equipados modo multiplayer Call of Duty Modern Warfare 4

E há bastante o que fazer. A variedade de modos segura a experiência, dos clássicos Mata-Mata em Equipe e Baixa Confirmada a novidades que se encaixam bem, com destaque para o Posto Avançado de Combate, que infla o 6v6 tradicional para 24v24 e rende um caos gostoso de trabalho em equipe. A personalização de armas, por sua vez, é excepcional: achar a combinação ideal de mira, munição, coronha e bocal é um prazer à parte, e poucos FPS vão tão fundo nisso. Até as adições controversas divertem, caso de Inflation, uma variação de Baixa Confirmada em que os eliminados largam uma porcentagem do dinheiro que carregam, fazendo os melhores jogadores valerem mais e criando uma disputa frenética até o apito final.

O problema mora nos mapas, e aqui o veredito racha. São 12 no lançamento, pensados para o 6v6 e não como recortes de Warzone, o que é um acerto de filosofia. Alguns são ótimos e há quem os aponte como a melhor leva do estúdio em anos, com nomes como Transit 213 atualizando a ideia de Shipment. Mas vários decepcionam, entre corredores estreitos e linhas de visão ruins que tornam certos confrontos mais frustrantes do que deveriam. Pior: parte deles soa genérica a ponto de parecer gerada por IA, sem inspiração, uma crítica que se estende a alguns elementos de arte do cenário, ironia num jogo que poderia pagar os melhores artistas do mundo.

Mapa New York NYC Call of Duty Modern Warfare 4

Os problemas técnicos completam o quadro. Spawns inconsistentes, registro de acerto duvidoso e um TTK que às vezes oscila ainda rondam o COD moderno, e aqui não é diferente. Soma-se a isso o matchmaking, a dor de cabeça de sempre: com o SBMM rígido de volta, a ausência de filas com matchmaking aberto e os tempos de espera mais longos, cada partida tende a parecer uma final de torneio, o que ameaça desgastar o apelo do modo com o tempo. E vale citar dois incômodos de design: as sequências de eliminação, que premiam quem já está na frente às custas do resto do lobby, e o tom juvenil que destoa da seriedade da campanha, dos gritos de “cuidado, idiota!” à animação exagerada ao chamar uma nuclear tática.

No fim, o multiplayer é o mais irregular dos três pilares. Os fundamentos, a personalização de armas e a variedade de modos mostram por que ele ainda é um dos melhores arena shooters do mercado, mas os mapas questionáveis, os bugs persistentes e o matchmaking o impedem de alcançar o nível da campanha e do DMZ. É competente, viciante na dose certa e sustentado por uma base impecável, só não brilha tanto quanto o resto do pacote.

Outros Modos

Gameplay tiroteio Call of Duty Modern Warfare 4

O pacote ainda traz uma leva de modos novos, e aqui a conversa é de acertos e erros bem desiguais. O mais ambicioso é o Collateral, claramente de olho no nicho de Valorant e Counter-Strike 2. Ele abandona os nomes e vantagens das armas e adota um sistema de compras com itens genéricos como “Power Pistol” ou “Semi Auto Rifle”, num formato de ataque e defesa por rodadas, com a regeneração de vida desativada e uma economia no lugar dela. O problema é que isso soa confuso e redundante: o Call of Duty já tem um modo de ataque e defesa por rodadas, o Search and Destroy, e é difícil não enxergar o Collateral como uma tentativa descarada de enfiar a lógica de Counter-Strike no console.

Os outros tropeçam ainda mais. O Linha de Frente é basicamente um Mata-Mata em Equipe com spawns fixos, o que o reduz a um exercício maçante de repetir os mesmos corredores de abate sem fim. E o Posto Avançado da Guerra Terrestre irrita por outro motivo: uma enxurrada de tiros vindos de cada linha de árvores, saco de areia ou torre, sem brecha para respirar. Não que a ação em si seja ruim, mas o som furioso de um tiroteio de Modern Warfare 4 é tão intenso que falta aquele espaço para relaxar que um Battlefield 6 ou um Wardogs conseguem oferecer nos modos de larga escala.

Gráficos e Direção de Arte

Desde a estreia do seu novo motor gráfico em 2019, Call of Duty virou uma potência visual, com cada lançamento superando o anterior em imagem e desempenho nos três estúdios da franquia. Modern Warfare 4 não foge à regra e usa o hardware atual para entregar uma campanha deslumbrante, um modo de extração dinâmico e um multiplayer rápido e fluido. É na campanha, aliás, que a técnica mais impressiona: a corrida pelos telhados na neve, o caos visual de uma invasão, os pedestres desviando em pânico do seu veículo, o assalto total a uma cidade. Tudo é simulado com um realismo de primeira, e o DMZ e o multiplayer acompanham o nível, com mapas ricos em detalhe, sistemas climáticos impressionantes e armas renderizadas com capricho. A única ausência sentida é o ray tracing, disponível no PC mas fora do PS5 Pro e do PS5 e Xbox Series X.

Mapa Mumbai modo multiplayer Call of Duty Modern Warfare 4

O desempenho é o grande trunfo técnico, mantendo a fluidez veloz que é marca da série, e isso pesa muito depois de Black Ops 7 ter patinado com quedas frequentes no ano passado. Modern Warfare 4 passa longe disso e roda muito bem até no Nintendo Switch 2, o que não é pouca coisa. No PS5, a experiência é praticamente impecável, com apenas dois reparos menores: os detalhes faciais perdem um pouco de brilho fora das cenas de corte, e há carregamento tardio de texturas ao se mover rápido pelos cenários. São preços baixos a pagar diante da fidelidade gráfica e da estabilidade geral.

Vale a Pena?

Call of Duty Modern Warfare 4 soldados armados arte promo logo

Vale a Pena?

É difícil negar que o Call of Duty passou por maus bocados nos últimos anos, e o ceticismo diante de Modern Warfare 4, ainda mais depois de um beta conturbado, era mais do que justo. A boa notícia é que o jogo desmente essa desconfiança. Ele não reinventa nada, mas é, com folga, o pacote de lançamento mais divertido e completo que a Infinity Ward entrega há anos, sustentado por uma volta às raízes que caiu muito bem à série.

O grande trunfo é a campanha, e o maior elogio que dá para fazer é que ela te faz se importar de novo. O arco coreano é um dos pontos mais altos da franquia em anos, e a despedida de Price fecha com dignidade uma saga que vinha se perdendo. Ela entretém mais do que emociona e tropeça ao tentar amarrar a história fragmentada do reboot, mas, como aventura de ação, cumpre com sobra, e só por ela já há gente dizendo que o jogo vale o preço. Some a isso um combate impecável, que segue sendo o padrão-ouro do gênero, e o alicerce do pacote está garantido.

No conteúdo de serviço, o destaque é o DMZ. O modo de extração finalmente encontrou sua identidade e virou perigosamente viciante, daqueles que seguram no “só mais uma partida” muito depois dos créditos. A dúvida fica na retenção a longo prazo, já que alguns submodos ainda pedem mais conteúdo, mas, do jeito que está, é uma das melhores experiências multiplayer do ano. Já o PvP é o elo mais irregular: os fundamentos e a personalização de armas brilham, mas os mapas desiguais, os bugs persistentes e, sobretudo, o matchmaking o impedem de alcançar o resto. É o ponto que mais ameaça o fôlego do jogo com o tempo, e o maior pedido de quem jogou é simples: mapas melhores.

No balanço, Modern Warfare 4 vale muito a pena. Não é o retorno perfeito, nem tenta ser, mas é um retorno triunfal para uma série que parecia perdida, daqueles que restauram a fé no single-player da franquia e lembram por que o Call of Duty foi tão importante para tanta gente. Entre uma campanha que dá a Price uma saída à altura, um DMZ excelente e um multiplayer que, mesmo com arestas, ainda é dos melhores arena shooters do mercado, o pacote acerta no que mais importa: depois de anos difíceis, o Call of Duty descobriu de novo como ser divertido. E, no fim, não é esse o objetivo?

*Jogo analisado no PS5 com cópia gentilmente cedida pela Activision.

Confira a Política de Reviews do PS Verso

Notas do Jogo

Título: Call of Duty: Modern Warfare 4

Em Call of Duty: Modern Warfare 4, a guerra irrompe na península coreana quando a Coreia do Norte lança uma invasão em grande escala que ameaça desestabilizar o mundo.

Desenvolvedor: Infinity Ward
Publicadora: Activision
Lançamento: 23/10/2026
Classificação: 18+
Gêneros:

Nota Geral

8,5
  • História Avaliamos a narrativa do jogo, incluindo universo, personagens, motivações, roteiro e desenvolvimento da campanha, analisando como a história é apresentada e evolui ao longo da experiência.
    7,5/10
  • Jogabilidade Analisamos as mecânicas principais do jogo, como controles, sistemas, combate, progressão, level design, modos de jogo, dificuldade e demais elementos que definem a experiência de jogar.
    9/10
  • Gráficos e Direção de Arte Examinamos direção de arte, identidade visual, qualidade técnica, animações, texturas, performance e estabilidade geral do jogo.
    8,5/10
  • Multiplayer Avaliamos músicas, ambientação sonora, design de som, dublagem e qualidade da localização, incluindo suporte ao português brasileiro quando disponível.
    9/10

Veredito

Modern Warfare 4 volta às raízes e entrega o pacote mais divertido e completo da Infinity Ward em anos, com combate impecável e uma campanha que faz você se importar de novo. A despedida de Price e o arco coreano brilham, e o DMZ se firma como um dos melhores modos de extração já feitos pela série. O multiplayer tropeça nos mapas fracos e no matchmaking, mas, no conjunto, é o retorno triunfal que o Call of Duty precisava.

Vantagens

  • Campanha envolvente, com arco coreano forte
  • Combate impecável, o padrão-ouro do gênero
  • Movimentação no ponto certo entre Modern Warfare II e III
  • Narrativa dividida entre Price e Park funciona muito bem
  • DMZ mais envolvente que nunca, com progressão e missões estilo raide
  • Missão Stranded entrega liberdade sandbox de verdade
  • Volta às raízes nas armas, classes e mapas feitos para o 6v6
  • Apresentação deslumbrante e desempenho impecável

Desvantagens

  • História do reboot tem um desfecho geral insatisfatório
  • Mapas do multiplayer sem inspiração e com pouca variedade
  • Matchmaking, SBMM e spawns inconsistentes atrapalham o PvP
  • Registro de acerto e bugs técnicos pontuais
  • DMZ pode não reter a longo prazo e tem crafting complicado demais
  • Tom juvenil do multiplayer destoa da campanha
  • Sequências de eliminação premiam quem já está na frente
  • Ainda é Call of Duty: pouca liberdade e missão de Combate Aberto irritante

San Moreira
Sanzio Moreira tem 34 anos e é Jornalista, Fundador e Editor-Chefe do PS Verso. Amante da cultura gamer e sempre apaixonado pelo universo. Atuo como jornalista e Content Manager do mercado de games por 6 anos. Tive a ideia de criar este site exclusivamente pela vontade informar e ajudar a comunidade gamer brasileira.