Review | Astria Ascending


Criar um JRPG de sucesso deveria ser bem fácil. Bastaria contratar três ou quatro nomes consolidados do mercado e lançar o seu produto galgado pela nostalgia usando mecânicas já muito usadas e com um público cativo para hypar o seu produto afim de jogadores amantes consumi-lo. Esse pode ser um grande engano.

A desenvolvedora Dear Villagers anunciou em março de 2021, que estava desenvolvimento um JRPG chamado Astria Ascending com grandes nomes da franquia e empresa mais famosa do gênero, Final Fantasy e Square-Enix. Nomes como Hitoshi Sakimoto (Final Fantasy XIIVagrant Story) faria a trilha sonora, Kazushige Nojima (Final Fantasy X, Kingdom Hearts 2, Final Fantasy VII Remake) faria o roteiro e Akihiko Yoshida e Hideo Minaba ficariam responsáveis pela arte.

A proposta do jogo seria captar o sentimento nostálgico do gênero com a ajuda de profissionais respeitados pela Dear Villagers. A intenção era contar uma história forte onde as pessoas teriam que explorar tempos extraordinários onde cada herói teria a sua própria perspectiva sobre os acontecimentos e criar uma narrativa onde cada personagem teria que lidar com o grupo e estabelecer relações entre si.

Reunir pessoas tão boas é o bastante para fazer um bom jogo? A desenvolvedora do já criticado Super Neptunia RPG conseguiria alcançar um respeito maior apenas com bons nomes? Esses profissionais consolidados são bons sozinhos ou eles são bons porque possuem também uma estrutura, orçamento e suporte de uma grande empresa?

História

review astria ascending

A história acontece no continente de Orcanon. Neste continente existem cinco cidades divididas por cinco raças que vivem em constante harmonia. Você irá acompanhar o grupo dos Oito Predestinados (Fated Eight), um grupo de heróis que são escolhidos a se tornarem Semideuses. Na mitologia do jogo de 3 em 3 anos são escolhidos oito guerreiros habilidosos manterem a harmonia de Orcanon e afastarem as ameaças, chamadas de Noises, do continente e dos seus cidadãos, ao fim desses 3 anos, os escolhidos recebem como prêmio a morte.

A história acontece durante os últimos 3 meses de vida do 333º grupo de semideuses, exatamente no período em que estranhos acontecimentos jamais ocorridos acabam assolando as cinco cidades que são comandados pela cidade central, Harmonia.

Alguns cidadãos indignados pela falta de livre arbítrio passaram a não mais respeitar o tratado de harmonia entre as raças e começam a não mais consumir uma fruta obrigatória cuja função e importância é vital para manter a paz e harmonia na sociedade de Orcanon, essa fruta é chamada no jogo de harmelon. Com esse ato de rebeldia, estátuas de seres guardiões da vida no mundo (os Astrae) começam a despertar e atacar as cidades e os cidadãos de Orcanon.

Junto com uma crise instalada e uma quebra no tratado de harmonia na sociedade, Noises começaram a romper barreiras e locais onde não tinham acesso vindo de longas distâncias. A tarefa dos Semideuses é descobrir o que está acontecendo no continente de Orcanon enquanto tentam reestabelecer a harmonia nos seus últimos 3 meses de vida.

Campanha

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O que aconteceria se você já começasse a narrativa com oito personagens pra serem desenvolvidos? Você como roteirista teria um grande trabalho para conseguir torná-los únicos e criar um ambiente de sinergia entre eles para que a narrativa não parecesse artificial e apressada. Pois é, em Astria Ascendingisso isso não foi possível.

Com Ulan, Arpajo, Kaydin, Alassia, Alek, Kress, Eko e Dagmar, o jogo já deveria entregar um grupo pronto, com personalidades distintas e um entrosamento melhor entre os personagens, mas parece que cada um acabou de se conhecer. Cada personagem possui uma personalidade que entra em conflito com o outro e todos tentam entrar em consenso o tempo inteiro.

O jogo segue o modelo de você visitar cada cidade e logo depois a cada Santuário de um Astrae a fim de entender o que se passa em Orcanon enquanto conhece mais do passado de cada membro do grupo. Acontece que tudo em sua história soa genérico e artificial, com sentimentos e acontecimentos tratados da forma mais negligente que um roteiro consiga fazer. Você passa pelas 20 horas de jogo da mesma forma que iniciou, sem nenhuma empatia pelo grupo de personagens, pela missão empregada, desinteressado pelo “mistério” dos acontecimentos, perdido pelo propósito da história e só pedindo para o jogo terminar.

Diálogos soam distantes, o ritmo da campanha é irregular, você se perde até em quem é o vilão, quem são os seres, como foi o passado influenciou o mundo presente. Há uma tentativa de mensagem filosófica e política iniciadas, com questionamentos sobre liberdade individual ou harmonia ditatorial, mas ela não chega nem no ponto de se explicar e termina sem ser aproveitada no roteiro.

Em suas últimas horas de jogo, a história começa a acelerar, atropelando o desenvolvimento do enredo, intenções propostas pelo roteiro e vai seguindo um caminho cada vez mais fundo rumo a um resultado completamente insatisfatório e plenamente esquecível em termos de campanha.

Gameplay

Astria Ascending é um JRPG de turnos. Você luta com 4 semideuses onde é possível trocá-los livremente durante as batalhas. A ordem de ação é baseada na agilidade do personagem. Cada personagem possui uma característica de ataque que se baseia nos  famosos jobs, classes com habilidades distintas, e cada personagem pode possuir cerca de 4 jobs diferentes e usados ao mesmo tempo.

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Nessa salada de opções, o jogo também possui uma árvore de habilidade para cada job onde você melhorará os status do personagem usando SPs e Stat Orbs (pontos ganhos em batalha e itens ganhos para adquirir determinadas habilidades). Acontece que algumas dessas árvores de habilidades podem nem precisar de serem melhoradas, bastando a árvore de habilidade do job inicial.

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Sobre a exploração e seu funcionamento, o jogo adota a visão 2D, onde você irá se deslocar por mapas de plataformas para encontrar inimigos, portas, baús e adquirir habilidades únicas na exploração para resolver puzzles como abaixar o nível da água, ativar dispositivos, derrubar barreiras e etc.

Ao encontrar inimigos no mapa o jogador pode paralisá-los com uma dessas habilidades e acertá-los para entrar nas batalhas, além disso tanto o inimigo e o jogador podem conseguir vantagens de um deles conseguirem se acertarem quando estiverem desatentos. Acontece que há problemas de animação nesse ataque antes de entrar em batalha e você se verá entrando em combates antes da animação de ataque surgir na tela e inimigos no mapa sempre possuem o mesmo visual genérico de uma esfera de luz azul onde é difícil saber quando o inimigo está de costas ou de frente para pegá-lo desprevenido.

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Esse sistema 2D já foi muito usado em jogos de Valkyrie Profile e Odin Sphere, mas em Astria Ascending a movimentação não é das melhores. Você se verá caindo por diversas vezes em buracos, já que o input lag do jogo é notável e nada fluido para um JRPG 2D que foca na exploração de plataformas para se deslocar no cenário. Além disso, a representação do mapa gráfico para você se localizar é confusa e bem ruim, com quadrados representando salas e fios azuis representando os destinos onde cada porta sairá, fazendo confundir mais o jogador do que ajudar.

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Combate

Astria Ascending possui um sistema de combate divertido para amantes de turnos, possuindo todas as mecânicas já amadas e colocando liberdade para o jogador montar a sua estratégia durante as batalhas de forma dinâmica, mas contêm alguns problemas que podem irritar.

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A grande diferença do sistema de batalha de Astria Ascending é a mecânica de Focus Points. Os FPs são pontos compartilhados pela sua party e o inimigo também contará também com o seu medidor próprio. Cada medidor possui dez FPs por vez e eles podem encher ao explorar as fraquezas elementais do inimigo, ao usar os FPs o jogador terá um aumento de efeito e força em ataques, magias e cura. Da mesma forma o inimigo pode ganhar FPs se atacar uma fraqueza do seu personagem ou se você atacar o inimigo com algo em que ele é resistente. Esse sistema obriga o jogador a compreender mais sobre as fraquezas dos inimigos e montar sua party com base no ataques e defesas elementais que possuem para facilitar as batalhas, forçando uma preparação prévia para as batalhas em cada mapa.

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Acontece que o jogo possui um problema notável, a falta de balanceamento de dificuldade e erros primários em mecânicas de alguns inimigos. Você se verá tendo que testemunhar combates muito fáceis e inimigos exageradamente difíceis no mesmo mapa. Para o jogador mais experiente no gênero, grinding em JRPGs é uma característica comum, mas em Astria Ascending o ritmo desse costume é exagerado, já que você se verá tendo que grindar duas vezes na mesma dungeon. Além disso, o jogo acaba te irritando em fazer monstros lançarem magias de paralização com uma alta taxa de sucesso de efeito em determinada dungeon, parando por quatro turnos a sua party inteira enquanto você vê o inimigo batendo em você por 2 minutos, se revelando uma falta de cuidado com o ritmo das batalhas.

Missões, J-Ster, Caçadas e extras

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Astria Ascending contêm cerca de 25 horas em média de jogo, podendo estender a experiência em até 75 horas de conteúdos adicionais. O jogo possui missões secundárias que são dadas por cidadãos das cinco cidades e se baseiam em objetivos genéricos e sem grande importância como derrotar uma certa quantidade de inimigos, conseguir itens, derrotar um certo inimigo ou levar itens de um local para o outro.

O jogo conta com um divertido sistema de jogo de cartas chamado J-Ster que você pode jogar com qualquer NPC do jogo. Você e seu oponente terão cinco cartas hexagonais que serão usadas em um tabuleiro com sete grids. Cada carta possuirá um valor numérico e cada face dela conterá diferentes atributos que aumentam ou diminuem de valor. Ao lançar uma carta, ela iniciará uma disputa de atributos e valores com cartas inimigas próximas, se você for mais forte e acertar os atributos fracos das cartas no tabuleiro, você irá virar as cartas inimigas e torná-las da sua cor. No fim, ganha quem tiver mais cartas no tabuleiro da sua cor. Cada partidas possui algumas regras diferentes e em algumas delas você pode tanto ganhar as cartas inimigas viradas na disputa quando perder as suas.

O jogo conta coma Guilda (Guild Master) onde deixará missões de caçadas (semelhante às caças de Final Fantasy XII) onde você terá que matar inimigos em determinadas localizações para ganhar armaduras, armas e dinheiro. Com esse montante de conteúdo extra, os jogadores que se empenham em completar 100% jogos do gênero terão uma boa quantidade de horas para gastarem. Conteúdo não irá faltar, o que deve ser julgado aqui é a qualidade desse conteúdo adicional, que é  questionável.

Gráficos

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O principal trunfo e qualidade de Astria Ascending sem dúvida nenhuma reside na sua direção de arte. Seus personagens possuem designs únicos e muito bonitos, investindo em diversos tons de cores que parecem saídos diretamente do caderno de um character designer e belamente reproduzidos no jogo com movimentações fluidas e animadas. Todos os NPCs e inimigos possuem o mesmo carinho e cuidado que os personagens principais, se tornando um dos melhores trabalhos de conceito artístico nos games desse ano.

Seus cenários parecem telas de pintura, com cores e formas saídos de uma aquarela vívida e alegre. Diversos mapas possuem características únicas o que revela o esforço e bom trabalho nesse quesito no jogo.

O ponto negativo fica para quando o game precisa de efeitos 3D para as magias e jogos de luz, apresentando um trabalho bem ruim em relação ao louvável trabalho artístico desenhado que Astria Ascending entrega.

Trilha Sonora e Som

Sua trilha sonora é composta pelo competente Hitoshi Sakimoto, compositor de Final Fantasy. Com trilhas orquestradas e uma cantada, o jogo passa a ótima sensação de fantasia que a franquia Final Fantasy sabe fazer tão bem, mas não chega a ser memorável ou algo que marcará o jogador ávido por composições únicas.

 

O jogo é dublado em inglês e não possui legendas em português. A dublagem é mediana, já que seus personagens agregam muito pouco na narrativa, narrativa essa que não possui grandes acontecimentos. Na verdade há até narradores reaproveitados em outros personagens e você vai notar isso perto do final.

Vale a Pena?

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Astria Ascending segue sendo uma grande proposta, com uma boa ideia conceitual, com ótimos nomes reverenciados no mercado dos games e do gênero, mas com um desempenho muito ruim na maioria dos seus quesitos.

O jogo conta com uma história que promete questionamentos políticos, sobre liberdade e livre arbítrio, mas termina sem aproveitá-los, se resumindo numa campanha básica de “derrote o vilão aleatório e salve o mundo”. Com personagens mal desenvolvidos, vilões com propósitos vazios e um final bem ruim, o jogo peca na área mais sensível de um RPG, a história.

Com uma direção de arte inspirada, Astria Ascending consegue sua maior conquista nos gráficos bem desenhados. Seu combate também irá divertir amantes de RPGs de turno, com um bom nível de desafio, apesar de desnivelado em algumas ocasiões, um bom sistema de jobs e árvores de habilidades e mecânicas de gameplay já bem consolidadas.

Astria Ascending deve agradar amantes de combates já que reúne diversos elementos tradicionais de um JRPG e apela por diversos momentos pela nostalgia de títulos do passado, mas como produto único, peca em diversas áreas.

Notas do Jogo
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Título: Astria Ascending

Descrição do jogo: Explora o mundo extenso e maravilhoso de Orcanon. Visita cinco cidades diferentes habitadas por criaturas únicas e conquista mais de 20 cenários perigosos. Inclui mais de 50 horas de jogo e vários mini-jogos divertidos, tais como shoot 'em ups, um jogo de cartas original de fantasia e quebra-cabeças ambientais desafiantes. Uma grandiosa história de destino e sacrifício Mergulha numa narrativa fascinante com traições, sacrifício e terrores. Astria Ascending tem personagens adultas, uma experiência madura e diálogo extenso.

Gênero: RPG, Aventura

Lançamento: 30/09/2021

Produtora: Artisan Studios

Distribuidora: PLUG IN DIGITAL LTD

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Nota
6.6/10
6.6/10
  • História - 4.5/10
    4.5/10
  • Jogabilidade - 7/10
    7/10
  • Gráficos - 8/10
    8/10
  • Trilha Sonora e Som - 7/10
    7/10

Veredito

Astria Ascending segue sendo uma grande proposta, com uma boa ideia conceitual, com ótimos nomes reverenciados no mercado dos games e do gênero, mas com um desempenho muito ruim na maioria dos seus quesitos.

O jogo conta com uma história que promete questionamentos políticos, sobre liberdade e livre arbítrio, mas termina sem aproveitá-los, se resumindo numa campanha básica de “derrote o vilão aleatório e salve o mundo”. Com personagens mal desenvolvidos, vilões com propósitos vazios e um final bem ruim, o jogo peca na área mais sensível de um RPG, a história.

Com uma direção de arte inspirada, Astria Ascending consegue sua maior conquista nos gráficos bem desenhados. Seu combate também irá divertir amantes de RPGs de turno, com um bom nível de desafio, apesar de desnivelado em algumas ocasiões, um bom sistema de jobs e árvores de habilidades e mecânicas de gameplay já bem consolidadas.

Astria Ascending deve agradar amantes de combates já que reúne diversos elementos tradicionais de um JRPG e apela por diversos momentos pela nostalgia de títulos do passado, mas como produto único, peca em diversas áreas.

Vantagens

  • Combate de turnos divertido
  • Sistema de Jobs
  • Árvores de Habilidades
  • Direção de arte inspirada
  • Trilha Sonora orquestrada

Desvantagens

  • Personagens demais de início prejudica história e gameplay
  • Roteiro raso e artificial
  • Vilões aleatórios
  • Personagens sem carisma
  • Mapas confusos
  • Dificuldade desnivelada em alguns momentos
  • Dublagem ruim

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San Moreira
San Moreira tem 33 anos e é natural de São Paulo. Eu sou formado em Banco de Dados e Gestão Empresarial. Amante da cultura gamer, sempre apaixonado pelo universo. Atuando como jornalista e Content Manager de games com foco na plataforma PlayStation e Battle Royales como Free Fire. Teve a ideia de criar este site exclusivamente pela vontade informar e ajudar a comunidade gamer.

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