Review de 007 First Light – Licença para Impressionar


007 First Light

007 First Light marca o retorno de James Bond aos videogames depois de uma ausência e tanto: catorze anos desde o esquecível 007 Legends, de 2012. A missão de trazer o espião de volta coube à IO Interactive, e é difícil imaginar candidata mais natural. Investigação minuciosa, furtividade, disfarces, astúcia e liberdade para improvisar são a espinha dorsal tanto de Bond quanto do Agente 47, protagonista de Hitman, a série que consagrou o estúdio. O encaixe entre a casa e o personagem sempre pareceu óbvio.

Anunciado lá em 2020 sob o codinome misterioso Project 007, o jogo passou anos como uma incógnita antes de finalmente ganhar nome e forma. O que a IO se propôs a entregar não é a adaptação de filme algum, e sim uma história de origem inédita: a de um Bond de 26 anos, tripulante aéreo talentoso e imprudente, recrutado pelo MI6 muito antes de conquistar o número que o tornaria lenda.

É, de longe, a aposta mais ambiciosa da história do estúdio, de escala cinematográfica bem maior do que a de Hitman. E é também a que carrega o maior peso nas costas, porque adaptar um dos personagens mais icônicos do entretenimento é um convite fácil ao desastre. A pergunta que fica no ar antes de apertar o start é simples: depois de tanta espera, este é finalmente o jogo do James Bond que os fãs mereciam?

007 First Light foi lançado no PlayStation 5 em 18 de Junho de 2026.

Nosso Gameplay de 007 First Light

História

007 first light james bond

007 First Light é uma história de origem. Ela acompanha James Bond ainda jovem e reimagina como ele se tornou espião do MI6, o braço do Serviço Secreto de Inteligência britânico dedicado a coletar informações e conduzir operações de espionagem dentro e fora do Reino Unido. A proposta da IO Interactive fica clara logo de cara: este não é o Bond condecorado que o cinema consagrou, mas o rascunho de um homem que ainda vai virar lenda.

Tudo começa com uma missão de aparência rotineira na Islândia. Bond faz parte de uma equipe, nada indica problema, e então tudo desanda. Um ataque de uma organização militar desconhecida o deixa como único sobrevivente, encurralado em território hostil, e o que parecia uma operação militar comum se revela outra coisa: uma missão ativa do MI6. É desse acidente de percurso que nasce o espião. Contatado pelo rádio por Moneypenny, Bond é empurrado ao trabalho de campo e obrigado a investigar a situação sozinho, com a agência explicando aos poucos por que havia assumido aquela operação.

É também aqui que o jogo assume sua maior liberdade com o mito. Ao contrário do Bond militar e condecorado de sempre, este era apenas um tripulante aéreo, e não um soldado do SAS. A distinção não é um detalhe, e sim uma declaração de intenções: First Light quer contar como um sujeito comum, ainda que talentoso e imprudente na medida certa, chama a atenção da pessoa errada na hora certa. Depois de resolver a crise no estilo exagerado e caótico que define o personagem, ele impressiona a cúpula do MI6 e recebe o convite para ser um dos primeiros a disputar uma vaga no programa 00, recém-reativado.

O que torna a coisa interessante é o quanto o jogo se dá ao trabalho de mostrar os bastidores. A agência, quase sempre retratada como uma instituição nebulosa e cheia de segredos, aqui abre as portas. Você convive com outros recrutas, explora a Divisão Q, sobe de elevador pela fachada da Universal Exports e conversa com os nerds e burocratas que fazem a máquina girar. É um retrato tão detalhado do MI6 que um dos personagens mais marcantes, o tal Basil, da contabilidade, nem precisa de uma única fala ou aparição para virar figurinha querida. O que parte de uma premissa simples ganha camadas conforme avança, mas o melhor dessa reviravolta é assunto para você descobrir com o controle na mão.

Campanha

007 first light bond bem arrumado

O maior elogio que posso fazer a First Light é também o mais inesperado: a melhor parte do jogo é a história. Digo inesperado porque nunca enxerguei a IO Interactive como mestra da narrativa cinematográfica, e confesso que temia que o roteiro fosse justamente o ponto fraco. Não é. A trama me prendeu do começo ao fim por não entregar nada de mão beijada. Ela guarda o mistério, revela informação a conta-gotas e obriga você a batalhar por cada resposta enquanto desenrola aos poucos a conspiração no centro de tudo.

Boa parte desse acerto passa por Patrick Gibson. Fazer a ponte entre o taciturno e ranzinza Agente 47 e um Bond imprudente e naturalmente charmoso não era tarefa simples, e ele resolve com sobra. Imprime uma confiança vibrante nessa versão mais jovem, mas deixa escapar os indícios da disciplina e da frieza calculista que definirão o espião mais tarde. O importante é que ele continua sendo James Bond. A IO não reinventou o personagem, apenas o pegou antes de virar lenda. Você reconhece o sujeito espirituoso, charmoso, aventureiro e com problemas crônicos de autoridade, só que ainda jovem, emotivo, meio ressentido e, no fundo, ingênuo. Já no prólogo dá para notar como ele age por conta própria: em vez da escolha segura de recuar, ele desafia as probabilidades para salvar agentes capturados, bate de frente com os superiores e confia nos instintos sem pesar as consequências. Ver esse rascunho de homem se desenvolver, reviravolta após reviravolta, é o que torna a jornada tão envolvente.

007 first light greenway bond

O jogo também não foge do lado sombrio da profissão. À maneira do Bond de Daniel Craig a partir de Casino Royale, First Light se dá ao trabalho de mexer no passado e nos traumas do espião, mostrando a crueldade de um mundo onde colegas somem sem aviso e o luto dura poucos segundos antes da próxima missão. Nos raros momentos de pausa, Bond toca de leve na infância, nos pais que perdeu cedo e no internato onde cresceu, e logo desconversa, respondendo curto para não se aprofundar. Não é lá muito sutil, mas gosto de como o roteiro reconhece que ele não tem tempo nem vontade de encarar isso agora.

Em volta dele há um elenco de apoio que faz uma diferença enorme. Nomes reconfortantes como M, Q, a Dra. Seline Tan, John Greenway e Miss Moneypenny dão lastro à trama, e dois se destacam. Kiera Lester entrega uma Moneypenny finalmente maior do que a secretária de M, e Lennie James torna John Greenway, criação original do jogo, tão sincero que supera a estrutura um tanto clichê do papel. Essa equipe sempre presente é o que mais distingue este Bond dos de Connery, Moore, Dalton, Brosnan, Craig e companhia. O humor e o charme estão lá, mas aqui ele ainda não é o espião impecável das telas, apenas alguém aprendendo a usar uma confiança que irrita meio mundo ao redor. Sustenta tudo isso um acabamento impecável. As cenas de corte têm um refinamento que parece fruto de anos de trabalho, o laboratório de Q ganha vida logo na primeira visita, os NPCs são falantes, há fartura de opções de diálogo e uma dublagem excelente até nos papéis menores. Os easter eggs para o fã raiz também acertam o alvo. Quando ouvi um “batido, não mexido” no meio de uma conversa, me flagrei apontando para a tela feito aquele meme do Leonardo DiCaprio.

007 first light mulher misteriosa

First Light equilibra bem a corda bamba de adaptar uma franquia consagrada sem soar imitação barata, ainda que o preço sejam algumas reviravoltas previsíveis. Certos personagens são claramente mais complexos do que aparentam na apresentação, às vezes em detrimento de outros que brilham rápido e saem de cena cedo demais. Para quem é de Bond, nada disso surpreende: a série sempre viveu de lançar um mistério e resolvê-lo minutos depois, oscilando entre o requinte digno de Oscar e o exagero caricato. Sua genialidade veio sempre do diálogo afiado e da espionagem esperta, às vezes até ridícula, e o jogo tem os dois de sobra. Não destrona um Casino Royale ou um Moscou Contra 007, mas fica bem acima de tropeços como Um Novo Dia para Morrer e Na Mira dos Assassinos.

Se há um calcanhar de aquiles, são os vilões. Metade da graça de um filme de Bond está em antagonistas tão astutos e magnéticos quanto o próprio herói, muitas vezes as verdadeiras estrelas do espetáculo, e é aqui que First Light fica devendo. O jogo nunca constrói um vilão à altura dos Goldfinger, Trevelyan e Blofeld da vida. O mais frustrante é que a culpa não é da premissa, porque o tema da inteligência artificial transformada em arma é uma base e tanto. O problema mora na execução: os antagonistas chegam tarde, ficam subdesenvolvidos e nunca funcionam como o contraponto que a personalidade de Bond pedia. Sobra a sensação de um oponente que só serve para apontar e atirar em quem atrapalha seus planos, quando poderia ter sido um espelho perfeito do herói.

007 first light vilao mascara filho

Quem rouba a cena do outro lado é Isola Vale. A personagem que ocuparia o posto de “Bond girl” se revela uma deuteragonista excelente, uma femme fatale mais fria, mais calculista e mais eficiente que o próprio Bond, cercada por um mistério que não se dissipa nem nos instantes finais. Ela é, de longe, o gancho mais forte que o jogo deixa em aberto, o tipo de personagem que faz você terminar torcendo por uma continuação só para descobrir para quem ela trabalhava e por que se dedicou tanto a Bond. No conjunto, First Light é uma releitura brilhante e uma história de origem que uma franquia icônica já merecia há tempos. Mostrar Bond conquistando seu número renderia um filme por si só, e é revigorante ver a IO acertar tanto justamente onde eu menos esperava.

Gameplay

007 first light treinamento

A forma mais direta de descrever First Light é como uma mistura de Hitman com Uncharted, e não à toa: é a interseção entre o passado e o presente da própria IO Interactive. Da série do Agente 47 vem a furtividade sistêmica e improvisada, com várias soluções para cada situação. De Uncharted vem a ação cinematográfica das grandes sequências, como perseguir um veículo em fuga ou se agarrar a um avião em pleno voo, sempre executadas com um espetáculo e uma segurança impressionantes. Um dos meus momentos preferidos foi uma briga num resort de luxo com fogos de artifício explodindo ao fundo, o tipo de cena que me fez pensar “é isso aí, isso é demais”. No fim, a IO junta essas influências e cria algo com identidade própria.

A estrutura conversa lindamente com a narrativa. Você é um recruta novato do MI6, então recebe o briefing da missão e passa pela seção de equipamentos antes de sair a campo, um ritual que faz sentido na história e ainda te dá motivo para planejar como a lenda agiria. A sensação é de aprender junto com Bond, e isso puxa você para dentro. Some a isso um dos melhores tutoriais que já vi num jogo de ação em terceira pessoa: montado como uma sequência cinematográfica de treinamento que funciona ao mesmo tempo como roteiro e como escola de mecânicas, ele te faz melhorar exatamente como o personagem melhora, até uma demonstração final que cobra tudo o que ensinou. Pode soar banal no papel, mas é a apresentação e a rapidez das transições que o destacam.

Dispositivos e improvisação

O coração da jogabilidade está nos gadgets, e cada um muda a forma de encarar um encontro. O Dart Phone dispara um dardo silencioso que causa náusea instantânea e obriga o guarda a se afastar, abrindo caminho sem alarde, enquanto a Smoke Pod cega a visão inimiga para uma eliminação limpa ou uma fuga rápida. Para quem prefere a mão pesada, a Caneta de Mísseis crava um explosivo letal no alvo e fere quem estiver perto, e a Alça Laser atordoa um inimigo para você partir pra cima. A isso soma-se a interação com o ambiente, que lembra Watch Dogs: dá para desligar câmeras à distância para sumir do radar ou hackear uma máquina e criar uma distração sonora. É essa combinação de ferramentas e cenário que faz cada confronto parecer novo, mesmo numa segunda jogada, e que premia quem gosta de ouvir conversas alheias, blefar, achar disfarces e manter a calma.

007 first light enganando inimigos

Cortesia do Q do MI6, Bond desbloqueia uma coleção de dispositivos clássicos ao longo das missões, mas só pode levar alguns de cada vez. Essa limitação é justamente a graça: escolher o loadout antes de sair a campo muda por completo como você vai encarar cada desafio. Levar o laser, por exemplo, permite queimar cadeados em silêncio, enquanto sair sem ele pode obrigar a arrombar a mesma porta na marra, alertando os inimigos por perto e empurrando você para um confronto direto. Cada ferramenta carrega essa espécie de troca, e é ela que dá peso à preparação.

O melhor é como isso se conecta à furtividade sem sufocar o jogo. Muitos títulos deixam o modo furtivo dominar tudo e virar fonte de estresse; First Light faz o contrário e usa a furtividade para elevar a experiência. Ser flagrado raramente significa morte, então você não precisa jogar tenso o tempo todo, mas limpar uma sala na surdina é extremamente gratificante. Chegar por trás de um inimigo para uma eliminação silenciosa ou incapacitá-lo com um gadget é sempre divertido e nunca punitivo, justamente porque quase nunca é obrigatório.

Dois dispositivos ficam com Bond o tempo todo. A Lente Q funciona como o modo detetive de outros jogos, destacando pontos de interesse, de itens que dá para furtar de NPCs desavisados a objetos que podem ser acionados. É aí que entra o Relógio Q, que remete a Watch Dogs ao permitir invadir eletrônicos à distância para distrair os inimigos. São ferramentas que reforçam o lado observador e paciente do espião, recompensando quem lê o ambiente antes de agir.

Fora a longa campanha, os gadgets ainda encontram um ótimo palco no TacSim, o modo bônus do jogo. Ele reúne uma série de desafios curtos baseados em situações e locais da história, perfeitos para matar a vontade de jogar mais First Light sem precisar revisitar toda a campanha. Poderia ter sido um extra descartável, daqueles que ninguém abre duas vezes, mas a IO investiu o bastante para transformá-lo numa adição que vale o tempo.

007 first light invadindo festa evento

É aqui que a IO joga em casa. Ninguém recria uma festa sofisticada com tanta competência, e as camadas de áreas restritas com múltiplos pontos de entrada casam perfeitamente com as artimanhas de Bond. As fases maiores foram claramente desenhadas para incentivar a criatividade, com espaços amplos e liberdade real de abordagem: dá para entrar atirando, cumprir os objetivos de diálogo em busca de itens-chave e acessos, ou limpar a área com eliminações furtivas. Não chega ao design intrincado da trilogia World of Assassination, mas compartilha boa parte das mesmas virtudes, e a preparação de missão, com dispositivos que abrem atalhos exclusivos, aumenta bastante a rejogabilidade.

O combate sustenta bem os trechos de ação, mesmo sendo simples. Bond tem um recurso de câmera lenta que facilita os tiros na cabeça, e o corpo a corpo se destaca pela forma brutal e natural com que ele incorpora o cenário nas brigas. Jogar uma arma vazia na cara de um inimigo nunca perde a graça, e os gadgets também entram na dança. Nas sequências furtivas, sobretudo nas do fim do jogo, isso brilha: exige domínio profundo das ferramentas e manipulação instantânea do comportamento dos NPCs.

O problema é o ritmo, e ele é real. A maioria das missões abre com Bond precisando cumprir uma tarefa numa área movimentada, chegar a uma sala, localizar um alvo, e essas seções de coleta de informação são lentas, pouco desafiadoras e conduzem tanto o jogador que, apesar de existirem vários caminhos, raramente dá a sensação de autonomia de verdade. Pense numa montanha-russa feita de várias subidas e quedas pequenas, em vez de um grande clímax: a ação esquenta, a missão termina, e a seguinte desacelera tudo de novo. Quando essas etapas trazem enigmas, funcionam; na maior parte do tempo, porém, se arrastam e entediam pela pouca reflexão que pedem. É a maior falha do jogo, ainda que doa menos em sessões mais curtas.

Curiosamente, a ação também tropeça no extremo oposto. First Light é um jogo propositalmente lento, e quando se afasta da base metódica para virar tiroteio, expõe uma mecânica de cobertura um tanto desajeitada, bem menos interessante do que resolver tudo na furtividade. As perseguições de carro divertem, mas são praticamente lineares e com direção que deixa a desejar. O contraste fica mais cruel na reta final, quando os dois lados chegam ao ápice: enquanto a furtividade atinge seu auge, a ação decepciona na execução, e confesso ter ficado frustrado com uma sequência climática anunciada o jogo inteiro, que deveria ser um ponto altíssimo de um jogo do Bond e não entrega o esperado.

Nada disso, porém, derruba um jogo tão bem construído. As notas dissonantes existem, mas First Light é um título da IO de cabo a rabo, e prova que, às vezes, a pergunta mais difícil, quem deveria comandar o retorno de Bond aos games, tem a resposta mais óbvia: os criadores de Hitman, claro.

Combate

007 first light tiroteio acao gunplay gameplay

O combate se divide em dois sistemas que se completam: a briga corpo a corpo e o tiroteio. O primeiro é fácil de comparar aos jogos Batman Arkham, com socos, contra-ataques e esquivas como pilares, mas na leitura ele funciona quase como um Uncharted mais afiado: você desvia dos ataques marcados em vermelho, defende os amarelos, prende inimigos com agarrões e castiga quando dá brecha. O charme está em como isso caracteriza o personagem. Bond é ágil de um jeito que o Agente 47 jamais seria, e as animações transmitem a agressividade crua de um espião ainda jovem, sem a precisão econômica que ele terá mais velho. O resultado é brutal, porém realista.

O que dá alma a essa pancadaria é o ambiente. Bond arremessa inimigos contra paredes, agarra o que estiver por perto e transforma o cenário em arma, e o detalhe é que os oponentes fazem o mesmo. Essa fisicalidade constante lembra o tempo todo que Bond é apenas humano, com limites de corpo, e é justamente o que sustenta o combate e faz você querer evoluir para desbloquear novos golpes. O senão fica na câmera. Como as fases são recheadas de obstáculos e coberturas pensadas para a furtividade, ela às vezes se perde no meio de uma briga, travando atrás de um objeto e obrigando um ajuste rápido para você voltar a enxergar a ação. Não estraga nada, mas incomoda, e some a isso uma curva de controles um tanto íngreme e alguns QTEs que eu dispensaria com gosto. Estamos em 2026, afinal.

O tiroteio adota o esquema de cobertura e me surpreendeu pela dureza. A sensação do disparo é ótima e rende momentos intensos, só que Bond apanha feio e morre rápido, o que me pegou desprevenido. Como há missões inteiramente furtivas, os confrontos armados obrigatórios, que o jogo batiza de Licença para Matar, entram como uma troca de ritmo muito bem-vinda. Limpar ondas de inimigos com munição contada, em clara desvantagem e pensando rápido, é eletrizante, ainda mais quando dá para jogar sujo com gadgets e perigos do cenário. Deixar um inimigo doente, aplicar choque, soltar fumaça, plantar uma armadilha explosiva ou usar o ambiente para surpreender alguém desavisado: tudo cabe, e o jogo recompensa quem abusa das ferramentas.

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É quando esses dois sistemas se fundem que o combate atinge o auge. A IA está sempre te caçando e te expulsando da cobertura, o que empurra a luta para um ritmo frenético de decisões instantâneas. Num segundo você está atrás de uma parede, no outro usa um Ataque de Salto para desarmar um inimigo e roubar sua arma, emenda uma Investida no próximo enquanto recua para nova cobertura, cega um atirador distante com a Alça Laser e mira nos membros do adversário mais perto para uma eliminação que poupa munição. Quando a arma zera, você simplesmente a arremessa na cara do primeiro que aparece. É, de longe, o ciclo de combate mais envolvente e satisfatório que joguei nos últimos tempos, a ponto de eu ter gostado mais dele do que dos jogos que uso de comparação. E essa criatividade se estende ao desenho das fases, que convida você a testar rotas e soluções diferentes para cada encontro.

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Nem tudo brilha na mesma intensidade. A IA é inconsistente demais para o meu gosto: funcional, mas longe de esperta, e eu adoraria que ela chegasse perto de um Metal Gear Solid 5. E a furtividade, que deveria ser um pilar num jogo do Bond, é a parte mais datada da experiência. Não há como carregar ou esconder corpos, os recursos oscilam entre a fartura e a escassez, e o sistema simplesmente não tem a profundidade que se espera de quem fez Hitman. Cheguei a querer fechar todos os desafios furtivos, mas a coisa nunca me fisgou como o combate. Por vezes, dava até a impressão de que o jogo não queria que eu agisse na surdina, tamanha a agressividade com que os inimigos se movem e se protegem ao menor sinal de presença. Funciona, mas poderia ter elevado muito o conjunto com mais mecânicas para explorar.

No balanço, o combate é o que torna First Light o mais próximo de um verdadeiro simulador de James Bond. Ele não reinventa a roda, e nem precisava: a IO pega mecânicas já consagradas do gênero e das próprias IPs, refina e coloca o espião britânico exatamente no seu elemento. A furtividade poderia ser bem melhor, mas a mistura de porrada estilosa, tiroteio tenso e improviso com gadgets tem lastro de sobra para rivalizar com os melhores nomes da categoria, de Uncharted a Tomb Raider.

Gráficos e Direção de Arte

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First Light é, sem rodeios, a melhor apresentação que a IO Interactive já entregou. Os visuais impressionam pelo requinte e se somam à dublagem para criar uma imersão rara: modelos de personagem detalhados, efeitos atmosféricos de peso e uma direção de arte impecável que faz o jogo transmitir de verdade a sensação de um filme do James Bond. O foco na iluminação é o que mais salta aos olhos, sobretudo no contraste entre as missões diurnas e noturnas.

Essa aposta na luz rende alguns dos melhores momentos do jogo. Há uma missão que começa de dia e escorrega para a noite, exibindo todo o colorido vibrante do jogo num resort de país tropical, e outra, gelada, que puxa a paleta para o extremo oposto. É também nesses trechos que se percebe uma escolha deliberada da IO: uma abordagem mais contida no design visual. First Light foge dos grandes espaços abertos e prefere se concentrar no que faz bem, uma sucessão de ambientes distintos e altamente detalhados.

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E essa variedade de cenários ainda ajuda a disfarçar os problemas de ritmo da campanha. A cada missão, um lugar novo e visualmente marcante: um resort de luxo no clima de White Lotus, um cemitério de navios enferrujados tomado por piratas, um baile noturno em Londres, o prédio das Webb Industries, uma base secreta escondida no frio. São palcos que carregam personalidade própria e mantêm os olhos sempre ocupados.

Segurar a ambição do level design foi, no fim, uma decisão esperta. As primeiras demonstrações do jogo sofriam com quedas de taxa de quadros, e ao apostar em cenários mais fechados e controlados em vez de mundos abertos ambiciosos, a IO chegou a uma versão final bem mais estável, sem sacrificar o impacto visual. É o tipo de contenção que trabalha a favor da experiência, priorizando o acabamento em vez do tamanho.

Trilha Sonora e Som

007 first light escalando montanha neve gelo

Os elogios se estendem ao design de áudio, que faz um trabalho fino de controlar a tensão em cena. Ele brilha especialmente nas seções furtivas, usando o som com tanta eficácia que me flagrei respirando de leve na cadeira, como se qualquer barulho meu pudesse me entregar. É o tipo de detalhe que revela cuidado e puxa o jogador para dentro da missão.

A música e a dublagem completam esse pacote e estão entre os grandes destaques da experiência. O momento que ficou marcado para mim foi a fuga de uma emboscada em Londres, quando as buzinas emendam o tema icônico de Bond enquanto você guia um caminhão de lixo enorme pela cidade. Simplesmente perfeito. Some a isso as atuações de Patrick Gibson como Bond, Kiera Lester como Moneypenny e Bart Edwards como Damian, e o resultado é uma experiência cinematográfica que eleva a apresentação a um patamar excepcional.

Vale a Pena?

007 First Light Protagonista Jogo

Trazer James Bond de volta aos games depois de catorze anos era uma aposta e tanto. Estamos falando de um dos personagens mais icônicos do entretenimento, e fazer jus a ele nunca foi tarefa simples. A IO Interactive não só conseguiu como entregou algo que eu não esperava: uma história digna do panteão de Bond, envolta numa produção de primeiríssima. Roteiro afiado, atuações excelentes, apresentação belíssima e uma jogabilidade que coloca o espião exatamente no seu elemento. First Light é tão elegante quanto envolvente.

O maior acerto foi entender o material de origem e traduzi-lo numa experiência de ação e furtividade moderna sem cair na armadilha óbvia. Este jovem Bond nunca parece um Hitman repaginado. A IO cruza a furtividade sistêmica das próprias raízes com o espetáculo cinematográfico à la Uncharted e um punhado de sistemas emergentes, e disso nasce uma identidade própria. As sequências mais elaboradas ganham vida graças a valores de produção impressionantes, e a história, contra todas as minhas expectativas, acaba sendo o ponto mais alto de tudo.

Nada disso apaga os tropeços, e eles existem. Os vilões ficam bem abaixo do que a franquia pede, subaproveitando um tema de inteligência artificial que merecia muito mais. As seções de coleta de informação se arrastam e provocam os piores problemas de ritmo do jogo. A furtividade, que deveria ser um pilar num título do Bond, soa datada e rasa perto do que a própria IO já fez em Hitman. E a ação, apesar de empolgante no auge, esbarra numa cobertura desajeitada e num clímax anunciado o jogo inteiro que decepciona bem na hora decisiva. São falhas notáveis, mas que nunca chegam a comprometer o conjunto.

Isso porque tudo ao redor é confiante como o próprio protagonista. A campanha é longa, o combate rende o ciclo mais satisfatório que joguei em muito tempo, o conteúdo secundário e o modo TacSim seguram a rejogabilidade, e o acabamento audiovisual sela a fantasia de espião. First Light vale sem dúvida o preço de um AAA, e é uma recomendação fácil não apenas para o fã de 007, mas para qualquer jogador. Facilmente um dos melhores lançamentos do ano, e um candidato de peso em várias categorias de premiação.

No fim, a IO respondeu à pergunta mais difícil, quem deveria comandar o retorno de Bond aos games, com a resposta mais simples possível: os criadores de Hitman. First Light é o melhor jogo do James Bond já feito, uma história de origem que planta uma base sólida para uma franquia inteira e deixa aquela sensação eletrizante de que isto é apenas o começo. Que estreia.

*Jogo analisado no PC.

Confira a Política de Reviews do PS Verso

Notas do Jogo

Título: 007 First Light

Conquiste o número. 007 First Light é um emocionante jogo de espionagem, ação e aventura desenvolvido pela IO Interactive. Acompanhe a jornada de James Bond, um jovem recruta habilidoso e, às vezes, imprudente, no programa de treinamento do MI6.

Desenvolvedor: IO Interactive
Publicadora: IO Interactive
Lançamento: 27/05/2026
Classificação: 16+
Gêneros:

Nota Geral

8,5
  • História Avaliamos a narrativa do jogo, incluindo universo, personagens, motivações, roteiro e desenvolvimento da campanha, analisando como a história é apresentada e evolui ao longo da experiência.
    8/10
  • Jogabilidade Analisamos as mecânicas principais do jogo, como controles, sistemas, combate, progressão, level design, modos de jogo, dificuldade e demais elementos que definem a experiência de jogar.
    9/10
  • Gráficos e Direção de Arte Examinamos direção de arte, identidade visual, qualidade técnica, animações, texturas, performance e estabilidade geral do jogo.
    8/10
  • Trilha Sonora e Som Avaliamos músicas, ambientação sonora, design de som, dublagem e qualidade da localização, incluindo suporte ao português brasileiro quando disponível.
    9/10

Veredito

Depois de 14 anos, Bond volta aos games pelas mãos da IO Interactive, e a espera valeu: o melhor jogo de 007 já feito. Roteiro afiado, produção impecável e um ciclo de combate viciante seguram a experiência, com a história como destaque surpresa. Tropeça nos vilões apagados, no ritmo das seções de investigação e numa furtividade datada, mas nada que derrube uma estreia e tanto.

Vantagens

  • História de origem envolvente, que segura o suspense do início ao fim
  • Excelente interpretação do jovem Bond, cercado de personagens marcantes
  • Combate corpo a corpo brutal e tiroteios tensos, num ciclo muito satisfatório
  • Uso inteligente dos gadgets clássicos e da interação com o ambiente
  • Fases amplas e bem desenhadas, com múltiplas abordagens e alta rejogabilidade
  • Produção impecável: apresentação, dublagem e cenários belíssimos

Desvantagens

  • Seções de coleta de informação lentas e rasas, que quebram o ritmo
  • Vilões apagados e algumas reviravoltas previsíveis
  • Furtividade datada, aquém do que a própria IO já fez em Hitman
  • Cobertura e controles imprecisos, e corpo a corpo por vezes rígido
  • Câmera atrapalha em brigas mais fechadas
  • IA inimiga inconsistente e pouco inspirada

San Moreira
Sanzio Moreira tem 34 anos e é Jornalista, Fundador e Editor-Chefe do PS Verso. Amante da cultura gamer e sempre apaixonado pelo universo. Atuo como jornalista e Content Manager do mercado de games por 6 anos. Tive a ideia de criar este site exclusivamente pela vontade informar e ajudar a comunidade gamer brasileira.