Review | Reanimal – Menos Ruptura, Mais Continuidade


Reanimal as
7.88/10

Após se afastar da série Little Nightmares, a Tarsier Studios apostou tudo em um novo projeto que inevitavelmente carregaria comparações. REANIMAL nasce desse momento de transição: um jogo de terror atmosférico cooperativo que preserva a identidade visual e o desconforto característicos do estúdio, mas tenta expandir sua fórmula com escala maior, mundo mais aberto e uma abordagem mais agressiva do horror.

O resultado é o jogo mais ambicioso e sombrio da Tarsier até hoje, ainda familiar em sua essência, mas disposto a testar novos limites. Resta saber se essa ambição é suficiente para justificar o afastamento de sua obra mais conhecida, ou se REANIMAL acaba caminhando com cautela demais.

Reanimal foi lançado no PlayStation 5 em 13 de Fevereiro de 2026.

Vídeo de Gameplay do Reanimal

História

Reanimal barco exploracao

A história de REANIMAL acompanha dois irmãos, um menino e uma menina, que tentam sobreviver e reencontrar seus amigos em uma ilha devastada, cercada por um oceano hostil e envolta por uma névoa constante. A abertura já define o tom: o jogador controla o irmão enquanto ele conduz um barco frágil pelo mar e encontra a irmã inconsciente, à deriva. Salvá-la é um processo tenso e lento, marcando de imediato a atmosfera sombria do jogo.

Ao chegarem à ilha, o cenário revela pistas inquietantes do que aconteceu ali. Malas abandonadas na praia, fábricas costeiras em ruínas e falésias instáveis sugerem que outras pessoas passaram por aquele lugar, e não tiveram um bom destino. A partir daí, a narrativa se constrói de forma fragmentada: o objetivo inicial é descobrir o paradeiro dos amigos desaparecidos, mas quase tudo é contado por meio de ambientes, imagens e breves cenas de corte, com pouquíssimo diálogo.

Reanimal Criancas Olhando Poço

Assim como em Little Nightmares, a Tarsier aposta em uma narrativa aberta à interpretação. Conforme os irmãos avançam pela ilha, a sensação de paranoia cresce, e a linha entre realidade e delírio se torna cada vez menos clara. Criaturas deformadas passam a persegui-los, desde figuras humanas que desafiam a lógica do corpo até monstros que surgem em sequências de fuga no mar, reforçando a constante sensação de vulnerabilidade.

No fim, REANIMAL não entrega respostas fáceis. A história é menos sobre explicações diretas e mais sobre a experiência emocional da jornada: o medo, a perda e a inquietação de explorar um lugar que parece corrompido em sua essência.

Campanha

A campanha de Reanimal aposta em uma narrativa fragmentada e majoritariamente silenciosa, confiando mais na ambientação e na leitura visual do que em explicações diretas. Essa escolha funciona muito bem nas primeiras horas, criando um clima opressor e cheio de tensão, mas começa a perder força conforme o jogo avança.

O principal problema surge perto do final. Narrativamente, alguns eventos parecem apressados ou mal conectados, resultando em um desfecho confuso, que deixa a sensação de que certas ideias foram encerradas cedo demais. Os poucos momentos de dublagem ajudam a transmitir medo e vulnerabilidade, mas não são suficientes para amarrar completamente a história.

Reanimal crianças sentadas no ponto de onibus

Em contrapartida, o ato final se destaca pelo impacto mecânico e atmosférico. Ele combina melhor suas ideias de jogabilidade, introduz desafios mais interessantes e eleva a tensão de forma consistente. O encerramento funciona mais pela experiência sensorial do que pela clareza narrativa (apesar de ser possível ter uma ideia do que aconteceu), fechando a campanha com força, mesmo sem resolver todas as suas questões.

Ainda assim, isso está longe de destoar da identidade do estúdio. Assim como nos jogos da série Little Nightmares, o foco nunca foi contar uma história tradicional, mas sim sustentar a experiência por meio da jogabilidade de plataforma e de uma estética perturbadora, e nesse ponto, Reanimal entrega exatamente o que se espera.

O ritmo, porém, sofre uma queda. O terror mais atmosférico das primeiras horas dá espaço, aos poucos, para sequências mais voltadas à ação, reduzindo parte da sensação constante de ameaça. O horror permanece presente, mas com menos impacto.

Reanimal Ovelha

A redenção vem no ato final, que é facilmente o ponto alto da campanha. Ele combina melhor suas mecânicas, introduz desafios mais criativos e eleva a tensão, encerrando a jornada em um momento forte e memorável.

Os animais, centrais ao longo das cerca de quatro horas de duração, funcionam como metáforas da brutalidade humana, reforçando temas como trauma, perda de inocência e sobrevivência. Reanimal não é um jogo gentil, e não tenta ser: sua força está justamente em abraçar o desconforto.

A única ressalva mais consistente fica por conta da estrutura episódica previsível. Mesmo com novas mecânicas, como dirigir e mergulhar, jogadores veteranos podem reconhecer rapidamente o ciclo de ameaça, perseguição e confronto.

No fim, Reanimal entrega uma campanha impactante, irregular em ritmo, mas fiel à sua proposta, que sabe onde brilha, e aceita suas próprias limitações.

Gameplay

Reanimal homem monstruoso

Reanimal é, em essência, um jogo de aventura focado em avançar com cautela, evitar mortes prematuras, resolver obstáculos ambientais e cooperar constantemente para sobreviver. A base é simples e direta, mas executada com precisão.

A Tarsier Studios não tenta reinventar sua própria fórmula. Em vez disso, aprimora aquilo que já funcionava nos dois primeiros jogos da série Little Nightmares. A jogabilidade continua centrada em plataformas, furtividade, perseguições e confrontos pontuais, com poucas novidades estruturais. Ainda assim, o ritmo é tão bem controlado que o jogo raramente soa repetitivo.

A progressão é um dos maiores acertos. Reanimal alterna perseguições, quebra-cabeças e momentos mais lineares com segurança, garantindo que cada trecho tenha identidade própria. Mesmo ao longo de suas cerca de três a quatro horas, o jogo nunca parece estagnar ou insistir demais em uma mesma ideia.

Reanimal personagens abrindo alcapao

Os encontros com criaturas seguem a lógica do terror furtivo: manter-se nas sombras, observar padrões, distrair inimigos ou eliminá-los quando possível. Entre esses momentos de tensão, surgem desafios ambientais e pequenas pausas que ajudam o jogo a respirar. O diferencial aqui não está na mecânica em si, mas na forma como os cenários e ameaças nunca se repetem de maneira óbvia, mantendo o jogador atento.

Embora seja inevitável a comparação com os títulos anteriores do estúdio, Reanimal se destaca pelo ritmo consistente. Não há reciclagem de quebra-cabeças ou perseguições idênticas, e cada nova área apresenta uma variação clara de desafio ou abordagem.

O jogo também abraça a cooperação como um elemento estrutural constante. Embora não alcance o nível de inventividade visto em jogos focados exclusivamente nesse aspecto, Reanimal utiliza o cooperativo de forma funcional e bem integrada ao ritmo da campanha.

A cooperação é necessária para avançar, mas raramente surpreende do ponto de vista mecânico. Ela funciona mais como reforço temático, dois irmãos dependentes um do outro em um ambiente hostil, do que como um diferencial criativo de design. Ainda assim, quando exige coordenação sob pressão, especialmente em sequências de fuga, esses momentos ganham peso e intensidade.

Reanimal perseguidos aranha monstro

Há também uma leve abertura à exploração. Em determinados momentos, especialmente em trechos mais calmos, como o barco ,, é possível sair do caminho principal para encontrar máscaras cosméticas ou colecionáveis que desbloqueiam artes conceituais. Não é um sistema profundo, mas adiciona curiosidade sem comprometer o ritmo.

Os quebra-cabeças, por outro lado, são claramente acessíveis. A maioria se resume a encontrar chaves, mover objetos ou escalar áreas em conjunto. Não há aqui a complexidade de algo como Portal 2, e nem tenta ser isso. Ainda assim, algumas seções se destacam, como os trechos subaquáticos, que exploram tensão e desconforto de forma inteligente, ou passagens onde os personagens precisam atravessar estruturas instáveis presos por cordas.

O equilíbrio geral funciona bem: não é possível jogar tudo no piloto automático, especialmente quando o jogo exige observação do ambiente. Em raros, mas ótimos momentos, detalhes visuais vistos anteriormente se revelam cruciais para avançar, recompensando atenção em vez de tentativa cega.

Grande parte da tensão vem das sequências de fuga, que dominam boa parte da campanha e mantêm o jogador constantemente alerta. O combate existe, mas é limitado e pontual, mais uma ferramenta de sobrevivência do que uma solução recorrente.

Nem tudo funciona perfeitamente. Jogando sozinho, a IA do companheiro pode travar no cenário, afetando a câmera e quebrando a imersão. Além disso, o jogo ainda sofre com um problema recorrente do estúdio: situações baseadas em tentativa e erro. Alguns encontros parecem pensados para que o jogador morra uma ou duas vezes antes de entender o que fazer, agravado por pequenos bugs nos comandos de interação que, ocasionalmente, falham em responder corretamente.

Ainda assim, mortes são rapidamente resolvidas graças a checkpoints generosos, o que evita frustração excessiva, embora não elimine completamente a quebra de ritmo.

Reanimal tanque gameplay

Por fim, embora seja totalmente possível jogar sozinho com um companheiro controlado pela IA, Reanimal é claramente mais forte no cooperativo, seja local ou online. Diversas sequências exigem coordenação real entre os dois irmãos, e esses momentos ganham muito mais impacto quando compartilhados com outro jogador.

No conjunto, o gameplay de Reanimal é familiar, bem ritmado e consistentemente tenso. Ele não revoluciona o gênero, mas entende exatamente o que faz esse tipo de experiência funcionar, e executa isso com confiança.

Gráficos e Direção de Arte

A identidade visual de Reanimal é construída menos pelo impacto imediato e mais pela persistência do desconforto. Em vez de apostar em cenas isoladas ou imagens chamativas, o jogo trabalha uma estética contínua, que se infiltra aos poucos e passa a definir a experiência como um todo. O resultado é um mundo visualmente coeso, onde cada espaço parece carregar um peso emocional próprio.

Reanimal barco cidade

A direção de arte é claramente pensada para sugerir, não explicar. Os cenários evitam exageros óbvios e apostam em composições que comunicam abandono, fragilidade e ameaça constante. A sensação não vem de um único elemento, mas da soma de pequenas decisões visuais: proporções distorcidas, iluminação opressiva e personagens que parecem deslocados do próprio ambiente que habitam.

A câmera tem papel essencial nesse processo. O jogo alterna enquadramentos de forma inteligente, ora aproximando o jogador para reforçar a vulnerabilidade dos irmãos, ora se afastando para transformar o espaço em algo esmagador. Em momentos de tensão, essa mudança de perspectiva amplifica o medo sem recorrer a artifícios baratos.

Reanimal baleia gameplay fundo do mar

Visualmente, Reanimal é tecnicamente sólido e consistente, mas faz escolhas estéticas bem específicas. A predominância de tons escuros e desaturados cria uma identidade forte, embora também limite a variedade visual entre áreas. Muitos ambientes compartilham texturas, iluminação e cores semelhantes, o que pode gerar uma sensação de uniformidade ao longo da campanha.

Ainda assim, essa opção não é gratuita. Justamente por conter a paleta, o jogo faz com que qualquer variação cromática ganhe significado imediato. Quando cores mais vivas surgem, elas não servem apenas como contraste visual, mas como sinal narrativo, algo está errado, mudou ou está prestes a acontecer.

No conjunto, a direção de arte de Reanimal é segura, autoral e extremamente consciente de seus objetivos. Ela não busca agradar pelo belo, mas provocar pelo incômodo. Pode cansar quem espera diversidade visual constante, mas dificilmente deixa de marcar quem se permite absorver seu clima.

Trilha Sonora e Som

Em Reanimal, o som é tratado como parte ativa da tensão, não como simples acompanhamento. A decisão de manter o uso de vozes extremamente limitado funciona a favor da experiência. O silêncio domina quase toda a jornada, fazendo com que cada palavra dita tenha peso real, sem quebrar o clima de estranhamento que sustenta a narrativa.

Essa contenção vocal reforça a sensação de isolamento e incerteza. Em vez de guiar o jogador por diálogos ou explicações, o jogo confia no ambiente sonoro para comunicar perigo, fragilidade e urgência. É uma escolha arriscada, mas bem executada, que preserva a identidade da obra.

Reanimal trem dentro monstros pele

A trilha sonora segue a mesma filosofia. Em vez de melodias marcantes ou temas recorrentes, Reanimal aposta em texturas sonoras desconfortáveis, ruídos distorcidos e sons ambientais que mantêm o jogador constantemente em estado de alerta. Mesmo em momentos aparentemente seguros, o áudio nunca permite relaxamento total.

O resultado é uma experiência auditiva opressiva e eficiente, onde o medo raramente vem de sustos explícitos, mas da antecipação constante de algo que pode acontecer a qualquer momento. Som e silêncio trabalham juntos para sustentar a atmosfera, tornando o terror tão psicológico quanto sensorial.

No conjunto, o design de som de Reanimal é preciso, econômico e profundamente alinhado à proposta do jogo, reforçando a tensão sem jamais exagerar ou se impor além do necessário.

Vale a Pena?

Reanimal Vale a Pena Veredito

Reanimal é um jogo sólido e consciente de suas próprias limitações. A Tarsier Studios entrega aqui uma evolução natural de sua identidade criativa, mas evita riscos maiores. O resultado é uma experiência competente e bem executada, porém mais contida do que muitos poderiam esperar após a ruptura com Little Nightmares.

Quando funciona, o jogo se sustenta quase inteiramente em sua atmosfera opressiva, na direção de arte consistente e em um ritmo de gameplay bem controlado. Esses elementos carregam a experiência e mantêm o interesse mesmo quando a narrativa se fragmenta ou quando os desafios se mostram excessivamente simples.

Por outro lado, Reanimal expõe limites claros. O ritmo narrativo vacila, especialmente no terço final, e os quebra-cabeças raramente exigem mais do que observação básica. A cooperação, embora constante, atua mais como suporte temático do que como um diferencial mecânico real. Pequenos problemas técnicos e situações de tentativa e erro também comprometem a imersão em momentos pontuais.

Comparado aos melhores momentos de Little Nightmares, Reanimal não alcança o mesmo nível de impacto ou refinamento. Ele preserva a estética e o clima, mas avança pouco em termos de inovação. Ainda assim, não representa um retrocesso, apenas um passo cuidadoso demais para quem esperava algo mais ousado.

No fim, Reanimal vale a pena dentro de expectativas ajustadas. Não é o ápice do estúdio, nem uma redefinição do gênero, mas é uma obra atmosférica, coerente e tecnicamente competente. Recomendado para fãs de terror psicológico e do estilo da Tarsier Studios; menos indicado para quem busca inovação mecânica ou experiências cooperativas mais profundas.

*Jogo analisado no PC.

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Notas do Jogo
Reanimal Cover Capa

Título: Reanimal

Descrição do jogo: Os criadores de Little Nightmares I & II retornam para trazer uma jornada aterrorizante e sombria como nunca antes vista. Neste jogo de aventura e terror, dois irmãos passam pelo inferno para resgatar seus amigos desaparecidos e escapar da ilha que eles chamam de lar.

Gênero: Terror e Aventura

Lançamento: 13/02/2026

Produtora:Tarsier Studios

Distribuidora: THQ Nordic, Amplifier Studios

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Nota
7.9/10
7.9/10
  • História - 8/10
    8/10
  • Jogabilidade - 8/10
    8/10
  • Gráficos - 8/10
    8/10
  • Trilha Sonora e Som - 7.5/10
    7.5/10

Veredito

Reanimal é uma continuação segura e coerente com a identidade da Tarsier Studios, sustentada por atmosfera forte e direção de arte marcante, mas com ambição criativa contida. Quando acerta, entrega tensão, ritmo sólido e um mundo visualmente poderoso; quando tropeça, expõe narrativa irregular, quebra-cabeças simples e cooperação pouco explorada. Não redefine o gênero nem supera Little Nightmares, mas oferece uma experiência consistente e recomendável para fãs de terror psicológico com expectativas bem calibradas.

Vantagens

  • Direção de arte e design ambiental de altíssimo nível
  • Atmosfera de terror consistente e opressiva
  • Sequências de perseguição intensas e bem encenadas
  • Trabalho de câmera cinematográfico e eficaz
  • Boa integração entre ação, plataforma e furtividade

Desvantagens

  • Quebra-cabeças simples e pouco inventivos
  • Ritmo narrativo irregular e estrutura previsível
  • Conclusão da história abrupta e pouco clara
  • Sequências baseadas em tentativa e erro
  • Pequenos problemas técnicos recorrentes
  • Falhas ocasionais nos comandos de interação
  • Comportamento inconsistente de alguns inimigos

San Moreira
Sanzio Moreira tem 34 anos e é Jornalista, Fundador e Editor-Chefe do PS Verso. Amante da cultura gamer e sempre apaixonado pelo universo. Atuo como jornalista e Content Manager do mercado de games por 6 anos. Tive a ideia de criar este site exclusivamente pela vontade informar e ajudar a comunidade gamer brasileira.