Poucas siglas dividiram tanto a conversa sobre gráficos nos últimos anos quanto ray tracing. A promessa é grande: jogos que parecem quase reais, com luz, sombra e reflexos se comportando como no mundo físico. E a boa notícia para quem tem um PlayStation é direta: sim, o PS5 tem ray tracing, por hardware, desde o lançamento, e o PS5 Pro leva a tecnologia ainda mais longe. A pergunta que fica é: o que exatamente isso significa, por que muda tanto a aparência dos jogos, e como você aproveita esse recurso no seu console?
Este guia responde tudo, do conceito por trás da técnica até a parte prática de ativar e escolher os melhores ajustes. Vamos começar entendendo o problema que o ray tracing veio resolver, porque para valorizar a solução é preciso conhecer o método que os videogames usaram por décadas: a rasterização.
Para entender como o ray tracing se soma a outras tecnologias do visual moderno, veja também o que é HDR e como funciona nos games.
O que é a rasterização (e por que ela existe)
Recriar o mundo real dentro de um jogo é uma tarefa quase impossível. Pense em como você enxerga a sala onde está: um número praticamente infinito de fótons, as partículas de luz, sai das lâmpadas e das janelas, bate nas paredes, nos móveis e no chão, e parte dessa luz refletida chega aos seus olhos. Cada superfície absorve algumas cores e devolve outras, e é por isso que uma parede azul parece azul. Simular esse vaivém infinito de luz em tempo real exigiria um poder de processamento que nenhum computador doméstico tem.
A saída que a indústria encontrou foi trabalhar com aproximações inteligentes, e a principal delas se chama rasterização. Em vez de seguir a luz, ela parte da geometria: todo modelo 3D de um jogo, seja um personagem ou uma montanha, é feito de milhares de polígonos, quase sempre triângulos. A rasterização calcula quais desses triângulos aparecem na tela, em que posição, e depois “pinta” cada pixel com a textura e a cor apropriadas.
É um método rápido e eficiente, capaz de processar milhões de polígonos por quadro dezenas de vezes por segundo. O problema é a iluminação. Como a rasterização não segue a luz de verdade, todos os efeitos de luz precisam ser falsificados por técnicas auxiliares: sombras “coladas” no chão, reflexos que só copiam o que já está na tela, escurecimento manual dos cantos. Funciona bem na maioria dos casos, mas cria limitações visíveis. Um espelho pode não refletir algo que está fora do campo de visão; uma poça d’água mostra uma cópia imperfeita do céu; a luz de um letreiro de neon não “pinta” de vermelho a parede ao lado. É aqui que o ray tracing muda o jogo.
O que é o ray tracing
O ray tracing, ou traçado de raios, faz o caminho inverso da rasterização: em vez de aproximar, ele simula o percurso real da luz. O algoritmo lança raios virtuais pela cena e calcula, para cada um, onde ele bate, o quanto reflete, quais cores carrega e como projeta sombra, do mesmo jeito que a física da luz funciona na vida real. Em vez de fingir a iluminação, ele a calcula.
O ganho aparece principalmente em três frentes, e vale entender cada uma com um exemplo concreto:
- Reflexos: uma poça d’água na rua passa a refletir de verdade o prédio e o letreiro acima dela, não uma cópia aproximada. Um piso de mármore devolve o reflexo dos personagens que passam por cima.
- Sombras: ganham gradação natural, mais suaves conforme se distanciam do objeto, em vez das bordas duras e artificiais da rasterização.
- Iluminação global: a luz “vaza” de uma superfície para outra. Aquele letreiro de neon vermelho agora tinge de vermelho a parede e o rosto do personagem próximos, criando um realismo que a rasterização não alcança.
Essa é, aliás, a mesma tecnologia que o cinema usa há décadas para misturar computação gráfica com cenas reais. A diferença é que um estúdio de cinema tem fazendas de servidores e pode levar horas para renderizar um único quadro. Fazer o mesmo em tempo real, 30, 60 ou mais vezes por segundo, dentro de um console do tamanho de uma caixa de sapatos, era o grande obstáculo. E foi exatamente esse obstáculo que o hardware do PlayStation 5 superou.
Como o ray tracing funciona no PS5
O PlayStation 5 entrega ray tracing acelerado por hardware graças à sua GPU baseada na arquitetura RDNA 2, da AMD. Traduzindo o termo técnico: a RDNA 2 é a geração de placas gráficas da AMD que trouxe unidades dedicadas exclusivamente ao cálculo dos raios de luz. Sem esse hardware específico, o ray tracing rodaria lento demais para um jogo; com ele, o efeito acontece em tempo real. É a peça que tornou tudo possível no console.
Na prática, o ray tracing no PS5 costuma aparecer de duas formas, e é útil saber diferenciá-las porque os jogos costumam citá-las nas opções:
- Iluminação Global com Ray Tracing: cuida da luz que se espalha e reflete entre as superfícies, criando o vazamento de cores e o sombreamento coerente por todo o ambiente. É o efeito que dá “peso” e realismo à cena inteira.
- Reflexos com Ray Tracing (Especulares): tratam das reflexões precisas em superfícies como água, metal, vidro e madeira molhada. É o efeito mais fácil de notar e o mais usado como vitrine da tecnologia.
Tudo isso tem um custo: processamento. Aplicar ray tracing consome muito da GPU, e é por isso que quase todo jogo oferece modos gráficos que deixam você escolher a prioridade. Entender esses modos é a chave para responder à dúvida de “como ativar” o recurso.
Os modos gráficos do PS5 explicados
Não existe um botão único no menu do PS5 que ligue o ray tracing para todos os jogos. A ativação acontece dentro de cada jogo, nas opções de vídeo, quase sempre pela escolha de um modo gráfico. Cada modo é um equilíbrio diferente entre beleza visual e fluidez. Esta tabela resume os mais comuns:
| Modo gráfico | Prioriza | Taxa de quadros típica | Ray tracing |
|---|---|---|---|
| Fidelidade (ou Qualidade) | Resolução e efeitos visuais | 30 fps | Completo |
| Desempenho | Fluidez | 60 fps | Reduzido ou desativado |
| Equilibrado | Meio-termo (ideal com VRR) | 40 a 60 fps | Parcial |
| Desempenho+ | Fluidez máxima | 120 fps | Geralmente desativado |
A escolha depende do jogo e da sua TV. Num RPG de exploração lento, o Modo Fidelidade a 30 fps entrega o visual mais impressionante sem prejudicar a jogabilidade. Já num jogo de corrida, luta ou ação rápida, a fluidez do Modo Desempenho a 60 fps costuma valer mais que os reflexos extras. Não existe resposta certa: é preferência pessoal.
Como ativar o ray tracing no PS5, passo a passo
Com os modos entendidos, ativar o ray tracing é simples:
- Verifique a saída de vídeo do console: em Ajustes, entre em Tela e Vídeo e garanta que a saída esteja em 4K e, se sua TV permitir, com VRR ativado.
- Abra as opções gráficas do jogo: a ativação é feita jogo a jogo, no menu de opções ou configurações de vídeo de cada título.
- Escolha o modo que ativa o ray tracing: normalmente o Modo Fidelidade ou uma opção com “Ray Tracing” no nome. Alguns jogos mantêm o recurso ativo em todos os modos; outros só no de qualidade.
Vale um esclarecimento sobre o VRR (Variable Refresh Rate), uma sigla que aparece muito nesse contexto. É uma tecnologia que sincroniza a taxa de atualização da TV com a taxa de quadros instantânea do jogo. Na prática, se um jogo oscila de 60 para 50 quadros por um instante pesado, o VRR mantém a imagem suave, sem os “rasgos” na tela (screen tearing) ou os engasgos que apareceriam sem ele. Para usá-lo, é preciso uma TV com porta HDMI 2.1 e suporte a VRR. Para o panorama completo do console e das TVs recomendadas, vale conferir o nosso guia completo do PS5.
Ray tracing e PSSR no PS5 Pro
O PS5 Pro faz tudo o que o PS5 faz, mas com muito mais potência de GPU e um ray tracing aprimorado. Na prática, isso significa reflexos e iluminação de maior qualidade, e a capacidade de manter efeitos de ray tracing ativos mesmo em modos de maior fluidez, algo que o modelo base precisa sacrificar. O grande diferencial do Pro, porém, é combinar o ray tracing com uma tecnologia de imagem exclusiva.
Trata-se do PSSR (PlayStation Spectral Super Resolution), um sistema de upscaling por inteligência artificial. Explicando o conceito: upscaling é a técnica de renderizar o jogo numa resolução mais baixa (mais leve para a GPU) e depois “ampliar” a imagem para 4K de forma inteligente. O PSSR faz isso analisando cada quadro pixel a pixel e reconstruindo os detalhes com redes neurais, treinadas para adivinhar como a imagem ficaria em alta resolução. Fruto da parceria entre Sony e AMD, ele trabalha lado a lado com o ray tracing: enquanto os raios cuidam da iluminação realista, o PSSR devolve nitidez e estabilidade sem pesar na GPU.
O resultado prático é o fim do velho dilema entre gráfico bonito e alta taxa de quadros. Antes, o jogador precisava escolher entre o Modo Fidelidade (lindo, porém a 30 fps) e o Modo Desempenho (fluido, porém sem os efeitos completos). Com o PSSR, dá para ter os dois ao mesmo tempo com muito mais frequência. Em sua versão mais recente, a tecnologia ficou ainda mais precisa, reduzindo artefatos como o serrilhado nas bordas e o “ghosting” (rastros que ficam na imagem quando algo se move rápido), além de reconstruir com mais fidelidade detalhes finos como fios de cabelo e tecidos.
Uma peça técnica reforça esse salto: o suporte ao BVH8. Sem entrar no jargão pesado, o BVH é a estrutura que organiza os objetos de uma cena para o algoritmo saber onde cada raio de luz precisa “procurar” colisão. Uma organização mais eficiente (o “8” indica a versão mais moderna dessa árvore de dados) permite processar luzes, sombras e reflexos com ray tracing mais sofisticado, gastando menos recurso. Esta tabela resume as diferenças entre os dois consoles:
| Recurso | PS5 | PS5 Pro |
|---|---|---|
| Ray tracing por hardware | Sim (RDNA 2) | Sim, aprimorado |
| RT em modo de alta fluidez | Limitado | Frequente |
| Upscaling por IA (PSSR) | Não | Sim |
| Foco | Escolher entre gráfico ou fps | Gráfico e fps juntos |
Jogos que mostram o ray tracing no PS5
A teoria fica mais clara com exemplos reais. Estes são alguns dos títulos que melhor demonstram a tecnologia, e o que exatamente cada um faz com ela:
Marvel’s Spider-Man 2: talvez o cartão de visita do ray tracing no PlayStation. Ao balançar entre os arranha-céus de Nova York, você vê a cidade inteira, e o próprio Homem-Aranha, refletida nas fachadas de vidro dos prédios em tempo real, além dos interiores visíveis através das janelas. É um efeito impossível de fingir de forma convincente com rasterização. A Insomniac usa o RT de forma cirúrgica: em modos de maior desempenho, os reflexos rodam em resolução reduzida para não derrubar a fluidez, um bom exemplo dos compromissos que a tecnologia exige.
Gran Turismo 7: um caso fascinante. No PS4 e no PS5 base, o ray tracing aparecia apenas nos menus e nos replays das corridas, nunca durante a pilotagem, para preservar os 60 fps. Com o PS5 Pro, os reflexos ray-traced passam a rodar em tempo real durante a corrida: peças do próprio carro e o cenário se refletem na carroceria e na pintura, elevando o realismo das disputas sem sacrificar a fluidez.
Cyberpunk 2077: Night City é feita de neon, chuva e superfícies molhadas, o cenário perfeito para o ray tracing. A iluminação neon reflete no asfalto encharcado e a luz colorida tinge o ambiente, reforçando a estética do jogo. No PS5 Pro, com PSSR e ray tracing avançado, o jogo chega a modos de altíssima fluidez mantendo a iluminação sofisticada.
Alan Wake 2 e outros lançamentos recentes usam a iluminação global com ray tracing para construir a atmosfera de ambientes fechados, onde o clima de tensão depende de como a luz e a sombra se comportam. À medida que mais estúdios adotam engines preparadas para a tecnologia, o ray tracing deixa de ser diferencial de poucos jogos e se torna parte esperada da experiência no PlayStation.
Ray tracing em ação: demonstrações
Nada explica melhor o efeito do que vê-lo em movimento. As demonstrações abaixo, produzidas para mostrar a tecnologia, ajudam a perceber como o ray tracing trata os reflexos, a refração da luz sobre os objetos e a forma como as poças de água devolvem a luminosidade do cenário. Repare especialmente na maneira como a luz se comporta nas superfícies e nos reflexos:
E, para fechar, uma cena cinematográfica criada especialmente para exibir o potencial máximo da técnica em tempo real, mostrando o nível de realismo que o traçado de raios pode alcançar:
Ray tracing no PS5 vale a pena?
Depende do que você valoriza. Se realismo visual é prioridade, o ganho é claro, sobretudo nos reflexos e na iluminação de ambientes, e transforma a imersão em jogos de mundo aberto e de atmosfera. O custo é a queda na taxa de quadros no modo que ativa o efeito completo, um preço que o PS5 base cobra de forma mais evidente e que o PS5 Pro, com o PSSR, praticamente elimina.
Para quem prioriza a fluidez acima de tudo, especialmente em jogos competitivos e de ação rápida, o Modo Desempenho a 60 ou 120 fps continua sendo a melhor escolha, mesmo que isso signifique abrir mão de parte do ray tracing. O bom é que a decisão é sua, jogo a jogo, e experimentar os dois modos é a melhor forma de descobrir sua preferência.
Perguntas Frequentes
O PS5 tem ray tracing?
Sim. O PlayStation 5 tem ray tracing acelerado por hardware desde o lançamento, graças à GPU baseada na arquitetura RDNA 2 da AMD, que inclui unidades dedicadas ao cálculo dos raios de luz. O PS5 Pro amplia essa capacidade com mais potência e um ray tracing aprimorado, combinado à tecnologia de upscaling PSSR.
Como ativar o ray tracing no PS5?
O ray tracing é ativado dentro de cada jogo, nas opções gráficas, geralmente ao escolher o Modo Fidelidade ou uma opção com “Ray Tracing” no nome. Nem todos os jogos oferecem o recurso, e alguns o mantêm ativo apenas em determinados modos. Uma TV 4K com VRR e HDMI 2.1 ajuda a aproveitar melhor o efeito.
Ray tracing no PS5 vale a pena?
Para quem valoriza realismo visual, sim. O ganho é mais visível em reflexos de água, vidro e metal, e na iluminação de ambientes. O custo costuma ser uma taxa de quadros menor no modo que ativa o efeito, algo que o PS5 Pro, com o PSSR, reduz bastante.
Qual a diferença do ray tracing no PS5 e no PS5 Pro?
O PS5 Pro tem uma GPU mais potente e ray tracing aprimorado, o que permite manter efeitos ativos mesmo em modos de maior fluidez. Somado ao PSSR, que reconstrói a imagem por inteligência artificial, o Pro entrega gráficos mais nítidos e estáveis sem sacrificar tanto o desempenho quanto o modelo base.
O que é o PSSR do PS5 Pro?
PSSR (PlayStation Spectral Super Resolution) é a tecnologia de upscaling por inteligência artificial exclusiva do PS5 Pro. Ela renderiza o jogo numa resolução menor e reconstrói a imagem em alta definição com redes neurais, permitindo unir gráficos com ray tracing e altas taxas de quadros ao mesmo tempo.







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