Dragon Quest VII Reimagined da Square-Enix chega como uma tentativa clara de reapresentar um dos capítulos mais longos e ambiciosos da franquia a um novo público, sem romper com as bases que sempre definiram a série. Trata-se de um RPG profundamente enraizado em estruturas clássicas, com foco em narrativa episódica, progressão gradual e sistemas tradicionais de combate por turnos. Ao optar por modernizar a apresentação e suavizar sua experiência, o jogo se posiciona menos como uma reinvenção e mais como uma reinterpretação cuidadosa de um título que sempre dividiu opiniões.
Essa nova versão aposta em acessibilidade, conforto e identidade visual, ao mesmo tempo em que carrega o peso de um legado construído sobre paciência, dedicação e desafio. O resultado é uma experiência que preserva o espírito de Dragon Quest VII, mas que inevitavelmente levanta questionamentos sobre o equilíbrio entre fidelidade e concessão, especialmente para quem conheceu o jogo em suas versões anteriores.
Dragon Quest VII Reimagined será lançado no PlayStation 5 em 05 de Fevereiro de 2025.
Vídeo de Gameplay do Dragon Quest VII Reimagined
História
Dragon Quest VII Reimagined começa em um mundo que parece simples, isolado e incompleto. Existe apenas uma única ilha (Ilha de Estard) cercada por um oceano infinito, e para seus habitantes isso nunca foi questionado: o mundo sempre foi assim. O protagonista vive uma rotina tranquila até que, ao lado de alguns companheiros, passa a explorar ruínas antigas recém-descobertas. Esses locais escondem objetos e sinais de um passado impossível, elementos que não se encaixam na lógica de um mundo tão pequeno e que despertam a sensação de que algo essencial foi perdido.
A partir desse ponto, a narrativa se desenvolve como uma investigação silenciosa. O jogador passa a entrar em contato com lugares e acontecimentos de outros tempos, encontrando povos, cidades e conflitos que não existem mais no presente. Cada encontro revela histórias humanas marcadas por medo, esperança, sofrimento e resistência, criando a impressão de que o mundo não desapareceu por acaso e que aos poucos, vamos restaurando pedaços do passado que vão se reconstruindo no presente. Mesmo sem grandes revelações imediatas, o jogo constrói um mistério constante, fazendo com que cada nova descoberta carregue peso narrativo e emocional.
Sobre os Personagens
Os personagens de Dragon Quest VII Reimagined possuem personalidade e identidade próprias, mas não chegam a ser especialmente memoráveis. Em grande parte, eles se comportam como figuras típicas de JRPGs, apoiadas em arquétipos bem definidos e em conflitos relativamente simples. Funcionam bem dentro da proposta da narrativa, mas raramente surpreendem ou se destacam de forma marcante.
O protagonista segue a tradição da série: é silencioso e atua principalmente como um avatar do jogador. Sua presença narrativa é mais funcional do que dramática, servindo como eixo da jornada e ponto de conexão com o mundo, sem um desenvolvimento psicológico profundo.
Kiefer representa o arquétipo do aventureiro impulsivo. Curioso e inconformado com a vida limitada que conhece, ele funciona como o motor inicial da história, sendo o personagem que impulsiona o grupo a explorar o desconhecido. Embora carismático, sua construção segue um caminho previsível, sem grandes rupturas.
Maribel é a personagem mais expressiva do grupo. Sarcástica, direta e impaciente, ela frequentemente verbaliza pensamentos que outros personagens evitam. Sua presença ajuda a dar dinamismo aos diálogos e a humanizar a jornada, mas sua evolução narrativa é moderada, permanecendo próxima do arquétipo da “companheira temperamental”.
Ruff se destaca pela sua origem singular: ele é um lobo branco transformado em humano por magia. Essa condição molda sua personalidade mais instintiva e espontânea, tornando-o direto, emotivo e guiado por impulsos, mas também genuinamente empático. Narrativamente, Ruff representa o olhar de alguém que não pertence totalmente ao mundo humano, funcionando como um contraponto mais selvagem e intuitivo dentro do grupo — ainda que sua construção não explore todo o potencial simbólico dessa premissa.
Aishe ocupa o papel da personagem introspectiva e ligada ao passado do mundo. Reservada e observadora, ela traz um tom mais espiritual e melancólico à narrativa, mas sua presença é discreta e pouco explorada em termos de profundidade emocional.
Mervyn, por sua vez, representa o arquétipo do personagem sério e guiado pelo dever. Formal e reflexivo, ele funciona como a voz da responsabilidade dentro da party, conectando a jornada a temas de fé e tradição, embora sua caracterização também permaneça relativamente convencional.
No conjunto, a party de Dragon Quest VII Reimagined cumpre bem sua função narrativa, mas dificilmente se destaca como um dos grandes elencos do gênero. Os personagens são competentes, carismáticos em certos momentos e funcionais dentro da estrutura do jogo, mas permanecem presos a arquétipos familiares, sem atingir um nível de complexidade que os torne verdadeiramente inesquecíveis.
Campanha
A campanha de Dragon Quest VII Reimagined é construída sobre uma proposta clara, ambiciosa e deliberadamente cautelosa: preservar a essência narrativa do original, mas reduzir o peso da duração e da repetição que marcaram as versões anteriores. Essa escolha redefine a experiência e ajuda a explicar por que o jogo continua despertando opiniões divididas. Para alguns jogadores, trata-se de uma jornada emocionalmente rica e bem estruturada; para outros, ainda é uma aventura fragmentada, excessivamente episódica e irregular em ritmo.
Diferente do título original de PS1, que podia ultrapassar 200 horas, e da versão de 3DS, que ainda superava facilmente as 100 horas, Reimagined adota uma abordagem mais enxuta. A campanha principal gira em torno de pouco mais de 30 horas, com conteúdo secundário elevando esse número para cerca de 40 horas, o que o torna significativamente mais curto e direto. Para atingir esse objetivo, o jogo recorre a resumos narrativos em tela preta, cortes de trechos considerados redundantes e a um sistema de orientação visual que indica com clareza o próximo destino do jogador, reduzindo a sensação de dispersão e perda de rumo.
Do ponto de vista estrutural, o formato episódico continua sendo o eixo central da narrativa. A progressão se baseia na coleta de fragmentos de tabuletas que revelam ilhas do passado, onde cada arco apresenta um conflito próprio, geralmente culminando em um confronto decisivo. Após resolver esses eventos no passado, as ilhas passam a existir no presente, exigindo um retorno para concluir as consequências da história. Nas primeiras horas, a campanha se organiza nesse ciclo recorrente, que define o ritmo e a identidade do jogo.
Cada arco funciona como uma pequena narrativa independente, permitindo explorar temas variados e dar espaço a histórias humanas mais contidas. Ao mesmo tempo, essa fragmentação constante ainda compromete o senso de progressão macro. Mesmo com a redução da duração total, é comum passar períodos sem a percepção clara de avanço narrativo, o que pode gerar sensação de estagnação, especialmente para jogadores menos pacientes.
O ritmo da campanha continua sendo seu aspecto mais controverso, embora agora em uma escala menor. O início permanece lento, investigativo e deliberadamente enigmático, estabelecendo mistério, mas exigindo envolvimento ativo do jogador. A ausência inicial de objetivos claros pode fazer o jogo parecer opaco ou excessivamente genérico. Para quem aprecia narrativas graduais, isso funciona como construção de atmosfera; para quem busca dinamismo, pode soar como falta de direção.
A duração reduzida, que em Reimagined se torna um dos principais diferenciais, também carrega ambiguidades. Por um lado, ela torna a experiência mais palatável e menos desgastante, eliminando parte da repetição estrutural que marcava o original. Por outro, evidencia ainda mais a natureza episódica do roteiro, já que muitos arcos continuam seguindo padrões semelhantes de progressão, nem sempre alcançando o mesmo impacto emocional.
Ainda assim, quando a campanha encontra seu equilíbrio ideal, ela se destaca com força. Seus melhores momentos surgem quando narrativa, ambientação e consequência se articulam de forma orgânica, fazendo com que o jogador perceba peso real em suas escolhas e transformações do mundo. Nessas passagens, Dragon Quest VII Reimagined demonstra por que sua história continua sendo lembrada como uma das mais ambiciosas da franquia.
No conjunto, a campanha não pode ser classificada como um triunfo absoluto nem como uma experiência problemática. Ela é coerente com suas intenções, mas exige um perfil específico de jogador. Quem espera uma jornada direta, intensa e constantemente recompensadora pode encontrar frustração. Já quem valoriza construção gradual, histórias episódicas e uma narrativa que se revela por persistência encontrará uma experiência singular, agora mais condensada e acessível.
Em última análise, Dragon Quest VII Reimagined não tenta agradar a todos , e talvez nunca tenha pretendido. Sua campanha é marcada por escolhas conscientes, tanto na preservação de sua identidade quanto na tentativa de torná-la mais moderna e fluida. Ela recompensa paciência e atenção, mas cobra isso em envolvimento emocional e disposição para aceitar seu ritmo próprio. É nesse equilíbrio delicado entre ambição, simplificação e perda de densidade que o jogo se afirma como uma releitura respeitosa, porém inevitavelmente divisiva, de um dos capítulos mais peculiares da série.
Gameplay
O gameplay de Dragon Quest VII Reimagined segue uma filosofia clássica e conservadora, baseada em combate por turnos definidos pela agilidade, totalmente alinhada à identidade histórica da série. Em vez de buscar reinvenção ou rupturas com o gênero, o jogo aposta em sistemas familiares, que são aprofundados gradualmente ao longo de uma campanha longa, densa e exigente. Essa escolha resulta em uma experiência coerente e consistente, mas também claramente polarizadora, funcionando melhor para jogadores pacientes e dispostos a se comprometer com seus ritmos e sistemas.
Além da campanha principal, Dragon Quest VII Reimagined oferece conteúdo opcional substancial para jogadores que desejam variar o ritmo. A arena de batalha apresenta inimigos lendários extremamente desafiadores, funcionando como um espaço de teste para builds mais avançadas e estratégias refinadas. Já o clássico Painel da Sorte retorna como um minigame que combina risco e recompensa, oferecendo itens raros valiosos para quem decide investir tempo fora da narrativa central.
Além da campanha principal, Reimagined oferece conteúdo opcional substancial para jogadores que desejam variar o ritmo. A arena de batalha apresenta inimigos lendários extremamente desafiadores, funcionando como um espaço de teste para builds mais avançadas e estratégias refinadas. Já o clássico Painel da Sorte retorna como um minigame que combina risco e recompensa, oferecendo itens raros valiosos para quem decide investir tempo fora da narrativa central.
Combate
O sistema de combate de Dragon Quest VII Reimagined é totalmente baseado em turnos, com comandos por menu e visão em primeira pessoa dos inimigos, adotando uma abordagem extremamente tradicional, mesmo para os padrões da época. A prioridade está na clareza e no controle, não no impacto visual. As regras são bem definidas, os atributos influenciam diretamente o desempenho em batalha e os confrontos raramente parecem injustos, criando uma sensação constante de estabilidade mecânica e previsibilidade.
Essa previsibilidade, no entanto, também se revela uma limitação ao longo da campanha. Muitos combates comuns oferecem pouca variedade tática, especialmente em trechos mais longos do jogo, fazendo com que o sistema pareça funcional, porém repetitivo. A falta de picos frequentes de intensidade em batalhas rotineiras reforça a percepção de um ritmo mais lento, algo que pesa ainda mais considerando a duração extensa da experiência.
Em Dragon Quest VII Reimagined, o sistema de batalha passou por ajustes significativos que buscam modernizar a experiência sem descaracterizar sua base clássica. Magias e habilidades foram refinadas, enquanto monstros receberam melhorias visuais e comportamentais, tornando os confrontos mais dinâmicos e legíveis. Essas mudanças ajudam a reduzir a sensação de rigidez presente na versão original, ainda que o núcleo do sistema permaneça intacto.
Uma das adições mais relevantes está na exploração: inimigos mais fracos podem ser derrotados diretamente no mapa, sem a necessidade de entrar em combate. Esse recurso mantém o ritmo da aventura mais fluido, reduzindo interrupções constantes e diminuindo o desgaste causado por encontros repetitivos.
Além disso, embora o jogo continue baseado em turnos, o combate pode ser configurado para fluir sem pausas entre as ações, com ajustes de velocidade de batalha e a presença de um modo automático. Essas opções oferecem maior controle sobre o ritmo das lutas e tornam a experiência mais acessível, especialmente em sessões prolongadas.
Outra adição relevante é a habilidade “Libertar-se”, ativada quando um personagem entra em estado de agitação. Essa mecânica funciona como um recurso de virada em combate, oferecendo ações mais poderosas em momentos críticos e adicionando uma camada extra de gerenciamento emocional e estratégico às batalhas. Embora não seja um sistema dominante, ele contribui para tornar encontros mais intensos e menos previsíveis.
No conjunto, o sistema de combate de Dragon Quest VII, especialmente em sua versão Reimagined, permanece conservador em essência, mas mais flexível em execução. Ele preserva a solidez e a clareza que definem a série, ao mesmo tempo em que tenta suavizar problemas históricos de ritmo e repetição. O resultado é um sistema que continua dividindo opiniões, mas que se mostra mais adaptável às expectativas modernas sem perder sua identidade clássica.
No que diz respeito ao combate, Dragon Quest VII Reimagined adota uma postura surpreendentemente mais permissiva do que suas versões anteriores. Em comparação direta com o PlayStation 1 e até mesmo com o remake de Nintendo 3DS, esta releitura se consolida como o jogo mais fácil da série até então. A dificuldade foi claramente suavizada, resultando em confrontos altamente acessíveis, com baixa exigência estratégica, inclusive em lutas contra chefes, que tradicionalmente funcionavam como testes de preparo e planejamento.
O sistema continua totalmente baseado em turnos, com comandos por menu e regras claras, mas agora raramente pune erros ou decisões pouco cuidadosas. A maioria das batalhas pode ser vencida com estratégias básicas, sem a necessidade constante de buffs, debuffs ou uso criterioso de recursos. Mesmo encontros que deveriam impor tensão acabam resolvidos de forma direta, reforçando a sensação de um ritmo confortável, porém pouco desafiador.
Essa facilidade se estende à economia do jogo. A gestão de dinheiro é simples, com recompensas generosas e custos relativamente baixos. Equipamentos não são particularmente caros, e o jogador dificilmente se vê forçado a escolher entre progresso e preparação. Como consequência, o grind perde grande parte de sua importância, não por ter sido eliminado estruturalmente, mas porque quase nunca é necessário para avançar com segurança.
Para novos jogadores ou para quem busca uma experiência mais fluida e menos punitiva, essa abordagem torna o jogo acolhedor e confortável. Por outro lado, veteranos da série podem sentir falta da tensão constante e da necessidade de planejamento que marcavam versões anteriores. O resultado é um sistema de combate funcional, estável e acessível, mas que abdica de parte da identidade desafiadora que, historicamente, ajudava a definir Dragon Quest como uma série de RPGs metódicos e exigentes.
Vocações
O sistema de vocações é o eixo central do combate em Dragon Quest VII Reimagined e uma das principais razões para a profundidade mecânica do jogo. Em vez de limitar os personagens a papéis fixos, o título permite alternar livremente entre diversas classes, fazendo com que habilidades e magias aprendidas sejam preservadas mesmo após a troca de vocação. Essa abordagem estimula a experimentação constante, o planejamento de longo prazo e uma personalização genuína da party, indo muito além de escolhas superficiais.
Essa liberdade, porém, não vem sem concessões. A progressão nas vocações depende de batalhas repetidas, tornando o grind uma presença constante ao longo da campanha. Para jogadores que apreciam otimização, progressão gradual e construção minuciosa de personagens, esse ritmo faz parte do apelo. Para outros, pode se tornar um fator de desgaste, quebrando o fluxo narrativo e prolongando excessivamente certos trechos. É um sistema profundo e recompensador, mas também pouco indulgente, que exige envolvimento contínuo do jogador.
Em Dragon Quest VII Reimagined, tanto o protagonista quanto os demais membros do grupo começam com vocações iniciais exclusivas, que ajudam a estabelecer suas identidades no início da jornada. Essas vocações, no entanto, não são permanentes. Conforme a história avança, novas opções são desbloqueadas, permitindo que os personagens aprendam novas magias e habilidades à medida que aumentam seus níveis de proficiência.
O jogo oferece 10 vocações para iniciantes, incluindo classes clássicas como guerreiro, mago e marinheiro. A partir delas, é possível acessar vocações intermediárias e avançadas, desde que certos requisitos sejam cumpridos. Esse processo não é simples: desbloquear vocações mais poderosas exige tempo e dedicação, mas a recompensa vem na forma de habilidades mais impactantes, feitiços raros e maior flexibilidade estratégica.
Um dos acréscimos mais relevantes é o sistema de trabalho paralelo, que permite atribuir duas vocações avançadas simultaneamente a um mesmo personagem. Essa mecânica amplia drasticamente as possibilidades de construção da party, abrindo espaço para combinações criativas e estratégias pouco convencionais — como unir duas classes focadas em magia ou misturar funções ofensivas e de suporte. A personalização é ampla e, para quem gosta de testar possibilidades, extremamente satisfatória.
Além disso, cada vocação conta com uma vantagem vocacional única, que pode ser ativada durante o combate quando o personagem atinge um estado máximo de exaltação. Essas vantagens são poderosas o suficiente para mudar o rumo de uma batalha, mas exigem timing e paciência, já que só podem ser liberadas no momento certo. Algumas focam em aumentar drasticamente o dano, enquanto outras oferecem suporte crucial ao grupo, reforçando ainda mais o caráter estratégico do sistema.
Entre as novas opções, a vocação Mestre dos Monstros se destaca. Sua vantagem vocacional, “Reforço Positivo”, permite invocar monstros poderosos para atacar diretamente os inimigos. Essa classe adiciona variedade ao combate e reforça a ligação da série com criaturas e habilidades especiais, funcionando como uma alternativa ofensiva diferenciada em relação às vocações mais tradicionais.
No conjunto, o sistema de vocações é rico, flexível e profundamente estratégico, mas também exigente e baseado em repetição. Ele recompensa dedicação e planejamento, ao mesmo tempo em que testa a paciência do jogador — uma escolha de design que define tanto os maiores méritos quanto as principais limitações do combate em Dragon Quest VII Reimagined.
Gráficos e Direção de Arte
Visualmente, Dragon Quest VII Reimagined adota uma abordagem clara de reinvenção estética, sem abandonar as raízes da série. Os designs de personagens criados por Akira Toriyama continuam sendo a espinha dorsal da identidade visual, mas agora reinterpretados em um estilo 3D artesanal, com proporções que remetem a miniaturas cuidadosamente esculpidas. O resultado é uma apresentação que preserva o carisma clássico da franquia, ao mesmo tempo em que busca uma identidade visual mais contemporânea e acessível.
Essa filosofia se estende aos cenários, cidades e masmorras, todos construídos sob uma estética de diorama, como se cada área fosse um pequeno mundo montado à mão. O uso desse estilo confere profundidade visual, com detalhes intrincados, texturas suaves e uma sensação constante de que o jogador está explorando um cenário vivo, porém intencionalmente estilizado. Há uma clara preocupação em manter uma atmosfera acolhedora e aconchegante, característica histórica de Dragon Quest, mesmo em áreas mais sombrias ou narrativamente densas.
O chamado “estilo artesanal” funciona especialmente bem nas cidades, onde construções, elementos decorativos e iluminação colaboram para criar locais memoráveis e distintos entre si. Cada vila transmite personalidade própria, reforçando o sentimento de jornada longa e episódica que define a estrutura do jogo. As masmorras, embora mais simples em composição, se beneficiam do mesmo tratamento visual, evitando a sensação de espaços genéricos.
As cenas de eventos e momentos dramáticos também foram recriadas dentro desse estilo visual característico. Em vez de buscar realismo ou espetáculo técnico, o jogo aposta em expressividade e clareza, utilizando enquadramentos, animações e direção artística para reforçar emoções e acontecimentos importantes da narrativa. Essa escolha mantém a coerência estética e evita rupturas visuais que poderiam quebrar a imersão.
Tecnicamente, o jogo não busca impressionar por meio de realismo ou complexidade gráfica, e isso fica claro. Ainda assim, a combinação entre direção de arte consistente, design carismático e uso inteligente do estilo diorama garante que Dragon Quest VII Reimagined envelheça melhor do que propostas mais ambiciosas tecnicamente. É uma apresentação visual que privilegia identidade, conforto e personalidade, mesmo que isso venha ao custo de menor impacto visual para quem espera algo mais ousado ou tecnicamente avançado.
Trilha Sonora e Som
A trilha sonora de Dragon Quest VII Reimagined segue fiel à identidade musical clássica da série, apostando em composições orquestradas, temas melódicos marcantes e variações sutis que acompanham a longa jornada do jogador. As músicas de campo transmitem sensação de aventura e descoberta, enquanto temas urbanos reforçam o clima acolhedor e quase nostálgico das cidades. Em momentos mais dramáticos, a trilha assume um tom mais contido, priorizando atmosfera e emoção em vez de grandiosidade exagerada. O resultado é funcional e coerente, ainda que, em uma campanha tão extensa, alguns temas acabem se tornando repetitivos, algo já conhecido por fãs da franquia.
Um dos avanços mais perceptíveis desta versão é a inclusão de dublagem em diversos diálogos (não todos), disponível tanto em inglês quanto em japonês, um recurso ausente em versões anteriores. A análise foi realizada com a dublagem em inglês, que se mostra surpreendentemente sólida, com boa direção de voz, atuações consistentes e personagens que soam naturais dentro do tom do jogo. As vozes ajudam a dar mais personalidade aos membros da party e aos NPCs importantes, tornando diálogos e eventos narrativos mais envolventes ao longo da campanha.
No entanto, esse avanço contrasta fortemente com uma ausência difícil de justificar: o jogo não conta com legendas em português do Brasil. Em um mercado cada vez mais relevante como o brasileiro, a decisão da Square Enix de ignorar um recurso tão básico funciona como uma barreira de entrada desnecessária. A falta de localização em PT-BR limita o acesso de novos jogadores, especialmente em um RPG extremamente centrado em narrativa, diálogos e leitura, como é o caso de Dragon Quest VII.
Não se trata de um recurso complexo ou tecnicamente inviável, mas de uma escolha editorial que reforça a percepção de que o público brasileiro ainda é tratado como secundário pela empresa. Em um jogo que já investe em dublagem multilíngue e apresenta uma produção cuidadosa em diversos aspectos, a ausência de legendas em português soa como um descaso evitável, que impacta diretamente a acessibilidade e o alcance do título no Brasil.
Vale a Pena?
Dragon Quest VII Reimagined é um jogo que sabe exatamente o que quer ser, mas também escancara para quem ele não é. Trata-se de uma releitura cuidadosa de um RPG extremamente clássico, ancorado em sistemas tradicionais, narrativa mais metódica, poucos picos de tensão e uma campanha que apresenta criatividade limitada. Ao mesmo tempo, esta nova versão suaviza boa parte das arestas que definiam o título originalmente, para o bem e para o mal.
A direção de arte em estilo artesanal é um dos grandes trunfos da experiência. O visual em diorama, aliado aos designs atemporais de Akira Toriyama, garante personalidade, charme e identidade própria, mesmo sem buscar impacto técnico. A trilha sonora orquestrada sustenta a jornada com competência e familiaridade, enquanto a dublagem em inglês e japonês finalmente adiciona camadas de expressividade que antes não existiam e, no caso do inglês, com um nível de qualidade acima do esperado.
Um dos pontos mais emblemáticos desta releitura está na duração da campanha. Ao contrário das versões anteriores, que ultrapassavam facilmente 100 horas e, no caso do PS1, podiam chegar a mais de 200 horas, Reimagined reduz drasticamente sua extensão, oferecendo cerca de 30 horas de campanha principal e pouco mais de 40 horas com conteúdo secundário. Essa escolha torna a experiência mais direta, menos desgastante e mais acessível, mas também evidencia o quanto o jogo depende de cortes, resumos narrativos e simplificações para sustentar seu ritmo.
Por outro lado, a decisão de transformar Dragon Quest VII Reimagined no jogo mais fácil da série até então redefine profundamente sua identidade. O combate acessível, a baixa exigência estratégica, a economia generosa e a quase eliminação da necessidade de grind tornam a progressão confortável, mas também diluem a tensão que historicamente acompanhava a franquia. Até mesmo chefes, que antes funcionavam como pontos de ruptura e aprendizado, raramente exigem adaptação real do jogador.
O sistema de vocações continua sendo o coração mecânico do jogo, oferecendo profundidade, liberdade e personalização real da party. Ainda assim, sua complexidade passa a coexistir com um nível de desafio que raramente exige explorar todo o seu potencial. O resultado é um sistema riquíssimo que, paradoxalmente, nem sempre precisa ser dominado para que o jogador avance sem dificuldades.
Há também uma falha difícil de ignorar: a ausência de legendas em português do Brasil. Em um RPG fortemente baseado em texto e narrativa, essa escolha da Square Enix funciona como uma barreira de acesso injustificável para o público brasileiro. Não se trata de um detalhe menor, mas de uma limitação estrutural que reduz o alcance do jogo em um mercado relevante e apaixonado por RPGs.
No fim, Dragon Quest VII Reimagined vale a pena, sim, desde que o jogador saiba exatamente o que está buscando. Para novatos, é uma porta de entrada acolhedora, segura e elegante para a série. Para veteranos, é uma experiência que encanta pela apresentação e conforto, mas que pode deixar a sensação de que algo foi perdido no caminho. É um excelente RPG clássico em forma e alma, porém mais curto, mais fácil e mais indulgente do que sua própria história sugere.
*Jogo analisado no PS5 com cópia digital fornecida pela Square-Enix.
The copyright of the images used on this page is jointly owned by SQUARE ENIX CO., LTD. and other co-owners. The unauthorized reproduction and distribution of the images is prohibited.
Ⓒ ARMOR PROJECT/BIRD STUDIO/SQUARE ENIX
Ⓒ SUGIYAMA KOBO
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Notas do Jogo

Título: Dragon Quest VII Reimagined
Descrição do jogo: Desvende os mistérios do passado em DRAGON QUEST VII Reimagined! Reúna seus companheiros e viaje além das margens do seu pequeno reino para descobrir por que ele é a única ilha restante no mundo.
Gênero: JRPG
Lançamento: 05/02/2025
Produtora: Square-Enix e Hexadrive
Distribuidora: Square-Enix
Nota
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História - 7.5/10
7.5/10
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Jogabilidade - 7.5/10
7.5/10
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Gráficos - 8/10
8/10
-
Trilha Sonora e Som - 9/10
9/10
Veredito
Dragon Quest VII Reimagined é uma releitura fiel de um RPG clássico, com campanha bem mais encurtada, estrutura tradicional e forte identidade visual. O estilo artesanal em diorama, aliado aos designs de Akira Toriyama, à boa trilha sonora e à dublagem em inglês e japonês, eleva a apresentação. Em contrapartida, a decisão de torná-lo o jogo mais fácil da série reduz a tensão do combate e subaproveita o excelente sistema de vocações. Vale a pena como uma experiência acolhedora e confortável, mas que pode frustrar veteranos pela falta de desafio.
Vantagens
- Versão bem mais encurtada que o original de mais de 200 horas
- Visual em diorama charmoso e simpático
- Dublagem de qualidade
- Progressão fácil e o mais acessível da série para novatos
Desvantagens
- Campanha carece de grandes momentos narrativos
- Combates fáceis e pouco estratégicos quebram o desafio do jogo
- Sem legendas em português do Brasil



























